Terça, 10 Novembro 2020 10:13

26/11/2020 - Quarenta dias de Maria Valéria Rezende

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PARTICIPANTES: Vivianne Veras; Patrícia de Souza; Iza Antunes; Adelaide Côrte; Maria Tereza Walter; Sulena Bandeira; Fabio Cordeiro; Miraildes Regino.

Imagine-se vivendo nas ruas de Porto Alegre por quarenta dias circulando por lugares inimagináveis e conhecendo pessoas totalmente diferentes do seu mundo cotidiano. Assim é o tema deste romance. Alice é uma senhora, recentemente aposentada, que mora confortavelmente na cidade praiana de João Pessoa, sozinha e está prestes a curtir a vida, quando uma reviravolta acontece. Sua única filha lhe dá um golpe e a leva para a cidade de Porto Alegre para que fique perto dela quando engravidar. Apesar de Alice não reagir e acabar se deixando levar pelos arranjos da filha, estranha demais a nova cidade e, depois de uma grande decepção, tem um surto que a leva a ficar perdida nas ruas a procura de uma pessoa que nem conhece.

Vários aspectos interessantes são tratados neste romance, ganhador do prêmio Jabuti de 2015. Em primeiro lugar, aborda a inércia de uma mãe diante dos apelos de uma filha que a convence a abrir mão de sua vida, para viver a dela. Esse comportamento é bem mais comum do que se imagina, pois ainda existe aquela visão de que a mulher sozinha (solteira ou viúva) deve se dedicar aos filhos e suas famílias, isto é, aos netos. A própria narradora se sente culpada ao cogitar não aceitar esse papel que, aos olhos da sociedade, lhe foi reservado. No seu íntimo ela o rejeita, mas não consegue se impor. Quantas mulheres aposentadas não se sentiram acuadas por esse destino? Ou quantas vezes nos sentimos arrancados de um lugar e colocados em outro sem desejarmos, seja por uma mudança no trabalho ou de cidade para acompanhar um cônjuge?

“[...] eu, calada e quieta, só ouvindo toda aquela leseira, aquilo parecendo uma cantoria de incelências na sentinela da minha antiga vida, pra todos eles já defunta”.

Segundo aspecto, trata do processo de adaptação a uma nova vida, que no caso de Alice foi extremamente difícil. Ele teve que enfrentar a solidão, já que não conhecia ninguém além da filha, que já tinha sua própria vida, no novo local. O choque da mudança de uma cidade do nordeste, de pequeno porte, para uma cidade grande do sul do país, ambas com costumes totalmente diferentes. E por fim, teve que enfrentar o preconceito, que cruelmente ainda existe em cidades do sul do país em relação aos nordestinos.

Todo esse caldeirão de emoções reprimidas transborda quando a filha comunica ter adiado a gravidez porque vai acompanhar marido em um curso no exterior por seis meses. Tudo aquilo que ela passou para agradar a filha, mesmo contra sua vontade, agora se revelou uma decepção, pois acabou por perder a única coisa que a prendia a esta cidade. Com isso, ela tem um verdadeiro surto, que foi a forma de extravasar toda a angústia e a revolta que guardava para si, e sai para a rua sem noção de quando retornar.

Apesar de ela ter a desculpa de procurar uma pessoa sem saber o nome completo ou endereço, na verdade ela não só está perdida fisicamente, mas também psicologicamente, sem rumo ou objetivo pessoal. Tal como a Alice nos país das maravilhas, em busca de outro mundo (não é à toa a escolha desse nome pela autora). Interessante observar que a narrativa do livro se dá por intermédio de uma conversa da protagonista com um caderno onde anota suas aventuras após seu retorno (que acaba acontecendo). Este “caderno da Barbie”, como passa a chamá-lo, é uma espécie alter ego, único com quem ela pode compartilhar seus sentimentos e torna-se seu porto seguro.

Outro ponto importante do texto é que nos remete a um mundo que apesar de estar presente ao nosso redor nos é totalmente invisível, que no texto ela identifica como: de gente desaparecida. Existe toda uma vida que fervilha nas ruas, com seus personagens, suas histórias e seus problemas, mas que são desconhecidos, e esse relato nos mostra o que há por trás dessas pessoas além da pobreza. O fato de usar uma escrita coloquial nos insere nesse mundo com mais facilidade.

O livro foi escrito por uma freira, que nos surpreende com uma narrativa despojada, mas forte, sobre como é duro se inserir numa sociedade estranha e arisca, e de como podemos obter ajuda de onde menos esperamos. Alice consegue um pouco de afeto de pessoas desconhecidas da periferia e das que moram nas ruas, talvez por terem em comum as suas origens nordestinas sem os ranços do preconceito. E será uma dessas moradoras de rua que a empurrará de volta.

“A voz de Lola, Basta, tu não aguenta mais, tu não precisa disso, tu vai voltar pra tua vida que a gente também não precisa de mais uma na rua, à toa.”

O livro não é totalmente autobiográfico, pois a autora não passou quarenta dias nas ruas nem teve tal surto. Ela conviveu com essas pessoas por quinze dias, num projeto social em conjunto com agentes sociais e grupos católicos. Contudo, foi o suficiente para nos oferecer um relato profundo e verdadeiro da vida nas ruas. É uma obra que mereceu ter sido premiada.

Se o leitor não conhecer bem a cidade de Porto Alegre, vale à pena entrar num aplicativo de mapa virtual e acompanhar o trajeto de Alice pelas ruas, pois algumas menções dos locais por onde ela passa são pinceladas ao longo do texto. Você com certeza se surpreenderá. Caso tenha interesse em outro relato muito bacana de alguém que teve uma experiência de vivência semelhante, segue a dica: “Crônicas do salário mínimo”, onde a jornalista Arcelina Helena Dias, relata a experiência de passar 30 dias vivendo com um salário mínimo.



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