Terça, 29 Novembro 2011 11:25

Doze mil bibliotecas que mudam vidas

 John Wood, que trabalhou na Microsoft, criou a instituição Room to Read
 com a qual está suprindo com livros e escolas milhares de crianças em
 cidades de todo o mundo
 NICHOLAS D. KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, COLUNISTA E GANHADOR DO PRÊMIO
 PULITZER

 Um dos triunfos legendários da filantropia foi a construção por Andrew
 Carnegie de mais de 2.500 bibliotecas mundo afora. Sua fama em estimular o
 aprendizado jamais foi igualada, mas, numericamente, seu feito foi
 ultrapassado várias vezes por um americano de quem provavelmente o leitor
 jamais ouviu falar.

 Vim ao Vietnã para ver John Wood entregar seu décimo milionésimo livro a uma
 biblioteca que sua equipe fundou nesta aldeia no Delta do Mekong –
 enquanto centenas de crianças locais aplaudiam e abraçavam os livros que
 ele trouxera como se fossem os mais raros tesouros. A organização
 beneficente de Wood, Room to Read, abriu 12 mil dessas bibliotecas por
 todo o mundo, juntamente com 1.500 escolas.

 Sim, o leitor leu corretamente. Ele abriu quase cinco vezes mais
 bibliotecas que
 Carnegie, embora as suas sejam, sobretudo, instalações de um cômodo que
 não se
 parecem em nada com as bibliotecas grandiosas de Carnegie.

 A Room to Read é uma das instituições beneficentes que mais crescem nos
 Estados Unidos e está abrindo novas bibliotecas a um ritmo alucinante de
 seis por dia. A título de comparação, a rede McDonald's inaugura uma nova
 loja a cada 1,08 dia.

 Tudo começou em 1998 quando Wood, então um diretor de marketing da
 Microsoft, encontrou por acaso uma escola remota no Nepal que atendia 450
 crianças. Havia somente um problema: ela não tinha livros.

 Wood ofereceu-se jovialmente para ajudar e acabou enviando uma montanha de
 livros por meio de uma tropa de burros. As crianças locais ficaram
 delirantemente felizes e Wood disse que sentiu tamanha alegria que deixou
 a Microsoft, largou a namorada de toda a vida (que achou que ele havia
 pirado) e fundou a Room to Read em 2000.

 Ele teve de enfrentar um desafio após outro, não só de abrir as
 bibliotecas, mas também de enchê-las de livros que os garotos gostassem de
 ler.

 "Não há livros para crianças em algumas línguas, por isso tivemos de
 também nos tornar editores", explica Wood. "Estamos tentando encontrar o
 Dr. Seuss do Camboja." A Room to Read possui, até agora, 591 títulos
 publicados em línguas que incluem o khmer, nepalês, zulu, lao, xhosa,
 chhattisgarhi, tharu, tsonga, garhwali e bundeli.

 Ela também apoia 13.500 meninas pobres que sem isso teriam de largar a
 escola. Num remoto recanto do Delta do Mekong, só alcançável por barco,
 conheci uma dessas garotas, uma aluna da 10.ª série chamada Le Thi My
 Duyen. Sua família, desalojada pelas enchentes, vive num barraco esquálido
 à margem de um dique.

 Quando Duyen estava na 7.ª série, ela largou a escola para ajudar a
 família. "Eu achava que educação não era tão necessária para meninas",
 recordou Duyen.

 Os funcionários de contato da Room to Read foram até a casa dela e
 convenceram a família a enviá-la de volta à escola. Eles pagaram suas
 taxas, compraram uniformes escolares e ofereceram-se para colocá-la num
 dormitório para que ela não tivesse de viajar duas horas para ir ou voltar
 da escola de barco e bicicleta.

 Agora Duyen está de volta, uma estrela em sua turma – e sonhando alto.
 "Gostaria de ir para a universidade", ela confessou, timidamente.

 O custo por garota desse programa é US$ 250 anuais. Para efeito de
 comparação, dizem que o casamento de Kim Kardashian custou US$ 10 milhões.
 Essa soma poderia ter apoiado outras 40 mil garotas na Room to Read.

 Muitos esforços americanos para influenciar países estrangeiros não
 tiveram êxito – sobretudo aqui, no Vietnã, uma geração atrás. Nós lançamos
 mísseis, enviamos tropas,
 contratamos fantoches estrangeiros e gastamos bilhões sem realizar muito. Ao
 contrário, escolarizar é barato e revolucionário. Quando mais dinheiro
 gastamos hoje em escolas, menos teremos de gastar em mísseis amanhã.

 Wood, de 47 anos, é incansável, entusiasmado e emotivo: um orador
 motivacional sem botão de desligar. Ele se desmanchou todo enquanto as
 garotas descreviam como a Room to Read transformara suas vidas.

 "Se você pode mudar a vida de uma garota para sempre, e o custo é tão
 baixo, por que há tantas garotas fora da escola?" ele refletiu.

 O mundo das organizações humanitárias é em geral terrível para passar sua
 mensagem, e o sucesso do Room to Read resulta, em parte, do passado
 profissional em marketing de Wood.

 Ele escreveu um livro fabuloso, Leaving Microsoft to Change the World
 ("Larguei a Microsoft para mudar o mundo", em tradução livre) para
 espalhar a palavra, e a Room to Read agora possui divisões para
 arrecadação de fundos em 53 cidades por todo o mundo.

 Ele também dirige a Room to Read com uma eficiência empresarial agressiva
 que aprendeu na Microsoft, atacando o analfabetismo como se fosse o
 Netscape.

 Ele diz a apoiadores que eles não estão doando para caridade, mas fazendo um
 investimento: onde se poderia obter mais retorno de um investimento do que
 iniciando uma biblioteca por US$ 5 mil?

 "Fico frustrado por haver 793 milhões de pessoas analfabetas, quando a
 solução é tão barata", disse-me Wood do lado de fora de uma de suas
 bibliotecas no Mekong. "Oferecermos isso não é garantia de que toda
 criança aproveitará. Mas se não oferecermos, é praticamente garantido que
 perpetuaremos a pobreza." "Em 20 anos, gostaria de ter 100 mil
 bibliotecas, atingindo 50 milhões de garotos", disse-me Wood.

 "Nossa meta para 50 anos é inverter a noção de que se possa dizer a uma
 criança 'você nasceu no lugar errado no tempo errado e por isso não será
 educado'. Essa ideia pertence ao lixo da história humana." / TRADUÇÃO DE
 CELSO PACIORNIK


 Fernando Ouriques
 Gerência do Sistema de Bibliotecas
 Biblioteca Nacional de Brasília
 (61) 3325-6237/57 r.211