Quinta, 06 Janeiro 2011 17:36

Conversando com Ana

Affonso Romano de Sant'Anna

Agente nunca se falou. Nem havia por quê. Mas os jornais noticiaram que você foi escolhida para ministra da Cultura. As primeiras notícias foram meio derrisórias. Falaram alguma coisa de sua carreira de cantora e fizeram referências ao seu pai e irmão famosos. Ou seja, estavam dando a entender que seu sobrenome é que havia sido nomeado...

Essa conversa não é com o seu sobrenome, é com você e seu nome. Falo com a ministra que herda da administração Gil-Juca um ministério mais bem estruturado do que aquele do qual participei entre 1990-1996. Aliás, na ocasião, estava eu na presidência da Fundação Biblioteca Nacional e posso atestar que herdamos a desestruturação desencadeada pelo confuso governo Colllor.

De lá para cá, as coisas melhoraram, embora os oito anos de Fernando Henrique-Weffort  tenham sido uma calamidade na área cultural, o que Gil e Juca logo perceberam e tentaram urgentemente corrigir. E o conseguiram em muitos setores. Uma das coisas mais notáveis foi na área do livro-leitura-biblioteca. O velho sonho meu e de muitos começou a se concretizar: ter uma biblioteca em cada município e ter consistentes programas de leitura aperfeiçoando e ampliando o que o antigo Proler fez heroicamente há uns 20 anos.

Hoje você tem duas coisas modelares que devem ser ampliadas:

1. Primeiro, a formação dos "mediadores de leitura" ou "agentes de leitura", que estão sendo treinados em todo o país e já trabalham em prisões, hospitais, comunidades carentes, assentamentos agrícolas. Nosso projeto originalmente previa que as Forças Armadas participassem disso ativa e estrategicamente. Previa que os milhares de "agentes de saúde" do Ministério da Saúde se transformassem em "agentes de cultura". Não preciso lhe explicar por quê. Os acontecimentos do Complexo do Alemão vieram confirmar nossas teses. Existe uma cultura da miséria que nos leva à miséria da cultura. No Ceará e no Acre, Fabiano dos Santos e Gregório Filho fizeram um trabalho modelar que agora está sendo levado para todo o país pelo seu ministério.

2. Outra coisa notável que carece de seu apoio explícito e firme é o Plano Nacional do Livro e da Leitura, o PNLL. José Castilho, editor e professor, conseguiu que governo e entidades particulares nacionais e estrangeiras pensassem num projeto nacional de implemento da leitura. A leitura como uma política de estado. Só o Projeto Viva Leitura conseguiu cadastrar e incentivar cerca de 10 mil projetos no país.

Está para ser criado o Instituto do Livro, da Leitura e das Bibliotecas, esboçado pela administração anterior. Quando assumi a FBN, há 20 anos, não se falava em leitura nem de biblioteca, apenas em livro. Daí o nome do Instituto Nacional do Livro, criado em 1937, e extinto pelo governo Collor. Repito, o Brasil está descobrindo a leitura e a biblioteca, que são o lugar de passagem para o desenvolvimento.

Por isso, sempre defendi que não basta reclamar parte do orçamento do pré-sal para a cultura. A estratégia é outra: a cultura é o verdadeiro pré-sal. Há países que têm petróleo e não venceram a miséria, e há países sem petróleo que decidiram que a cultura é que é a verdadeira riqueza.

Para ficar em alguns nomes e marcos nessa questão, forçoso é retomar no século 20 Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Paulo Freire, nossos antecessores. Mas o século 21 exige muito mais. O Brasil está amadurecendo em vários sentidos. Cabe a você, Ana, no Ministério da Cultura, tornar essa messe mais ampla e generosa.

(Fonte: CB, 03/01/2011, caderno Diversão&Arte, p. 2 - transcrição autorizada pelo autor)