Terça, 21 Julho 2020 15:27

21/08/2020 - O Encontro Marcado de Fernando Sabino

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Encontro marcado

 
Participantes: Vivianne; Iza Antunes; Adelaide Cortes
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Reunião realizada de forma virtual

Resenha
O Encontro Marcado é o primeiro romance de Fernando Sabino, escrito em 1956, nitidamente inspirado em muitos momentos de sua própria vida, seja na adolescência, seja como escritor, especialmente sobre a angústia que envolve o processo de escrever. O livro conta a história de Eduardo Marciano, um garoto de inteligência acima de média e que possui uma curiosidade e obstinação aguçadas e com isso, desenvolveu formas de manipular as pessoas para conseguir o que quer. Esse espírito de busca de conhecimento e dedicação, também o leva à momentos de entrega obstinada, que está presente na conquista de uma namorada, no seu apego aos compromissos firmados e no anseio por ser o melhor, aliado a uma pressa de conhecer e vivenciar tudo de uma vez. Descobre a literatura ainda jovem, e seguindo seu perfil obsessivo, leu tudo o que podia. Na adolescência, se junta aos amigos Hugo e Mauro, e curtem a vida regada à muita estripulia e confusão, mas com os quais compartilha muita literatura, debates filosóficos, entremeados de citações de escritores e de poetas. Resolve ser escritor, mas ao longo da vida, apesar de toda sua obstinação, nunca consegue exercer o ofício e realizar o sonho de escrever uma obra prima. No transcorrer dos anos, Eduardo vive como se fosse arrastado pelos eventos: se casa, faz novos amigos, consegue um emprego fixo, mas se vê envolto numa eterna insatisfação, que o persegue e o faz depressivo. Como ele mesmo reflete:

“Há uma festa em minha alma por onde a substância do que sou está sempre me escapando, mas não vejo onde nem porquê.” (pg.153)

O grupo apreciou muito o livro, e chegamos a nos divertir muito com os diálogos e as trapalhadas dos três jovens amigos, cheios de ilusões, críticos do mundo, especialmente dos adultos e esbanjando arrogância, bem típico dessa fase da vida. Não pudemos deixar de fazer um paralelo com o livro já debatido neste Clube do Livro, que é “O Apanhador no Campo de Centeio” (que faz um quadro de um adolescente no final da década de 40), cuja temática também é a de um adolescente em busca de afirmação. Ambos os protagonistas são inteligentes, bons alunos, amantes de boa literatura, mas são arrogantes e estão sempre criticando a sociedade, se achando os donos da verdade. Contudo, estão sem rumo e insatisfeitos, não encontram seu lugar no mundo, levando-os a apresentarem sintomas depressivos, que no caso do Eduardo (Encontro Marcado) lhe acompanharão até a meia idade.

No Encontro Marcado, os personagens não são bem adolescentes, são jovens, que gostam de ler, mostrar e recitar trechos de obras de seus autores favoritos, que na década de 40, quando acontece a Grande Guerra Mundial, que foi rica em pensadores que questionavam e influenciaram muito os jovens intelectuais dessa época. Eduardo Marciano busca desesperadamente um sentido para a sua vida. O romance se passa, uma boa parte, na vida boêmia e intelectual dos personagens que vivem na capital de Minas Gerais, e é um passeio por bares, praças e logradouros da cidade.

Já adulto, Eduardo vive sendo levado pelos acontecimentos, na ilusão de um dia realmente se tornar escritor. Após o seu casamento, Eduardo se torna mais e mais reflexivo e introspectivo. Vive a eterna angústia de não ser o que havia pretendido. Ao mesmo tempo, não se esforça para mudar os rumos da sua vida. Muitos críticos alegam que Eduardo na verdade é o próprio Sabino, descrevendo as angústias do autor no processo de criação de uma obra.

Percebemos que o texto parece ter um pé no existencialismo, estilo literário preconizado na década de 40, principalmente por Jean-Paul Sartre, pois temas como morte, suicídio e as angústias sobre a existência humana são recorrentes ao longo do livro. Tanto o caráter arrogante do protagonista quanto os sentimentos depressivos marcam sua presença no texto.

“O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.”  (pg. 44)

Mas, e quanto ao encontro marcado? No começo da amizade dos três amigos, eles marcam um encontro para 15 anos depois, mas só Eduardo comparece. No entanto, fica a dúvida, será que esse encontro se refere a um encontro físico? O grupo levantou algumas respostas: poderia ser com a morte, a que todos temos agendado desde que nascemos, mas não sabemos quando; ou seria o encontro do protagonista com ele mesmo, aquele compromisso que ele e cada um de nós tem consigo mesmo. O final do livro dá uma pequena dica quando, pela primeira vez Eduardo resolve atender o conselho de um monge (amigo de infância) e resolve parar para refletir, e ao entrar no mosteiro, diz: ...Vim por um ou dois dias, depois....

    


 

Ler 5500 vezes Última modificação em Domingo, 27 Setembro 2020 22:47

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