Trata-se de verdade incontestável o fato de a biblioteca mostrar-se essencial ao crescimento, desenvolvimento e, sobretudo, à transformação das pessoas.

Sem exigir horários nem uniformes, ela propicia a cada indivíduo a liberdade de conhecer o que quiser, quando quiser e como puder, em diferentes suportes (impressos, audiovisuais, cartográficos, ciberespaciais, entre outros), sem nada cobrar em troca; assegura a oportunidade de alcançar, ver, tocar, familiarizar-se com os mais diversos registros do conhecimento; oferece alternativa para escolha dos registros do conhecimento de interesse a cada um.

Se alguns levianos presumem-na morta e enterrada, a biblioteca renasce das cinzas qual fênix egípcia, simbolizando o deus sol e recriando-se.

Outra verdade estabelecida é o fato de haver diferentes tipos de bibliotecas. Cada país tem uma - e geralmente apenas uma - Biblioteca Nacional, destinada a preservar, disseminar e prover acesso à cultura e à produção bibliográfica (em sentido amplo) de uma nação, de um povo. Mais do que um patrimônio nacional, esse tipo de biblioteca faz-se patrimônio universal, na medida em que a cultura de um é parte da cultura do todo. Ao mesmo tempo em que olha para fora, para o mundo, uma Biblioteca Nacional precisa olhar para dentro e não somente preservar, mas difundir este patrimônio a seus concidadãos.

Os demais tipos de bibliotecas, ou centros de documentação, ou centros de informação, entre outras denominações, destinam-se a públicos específicos, mesmo que se refiram às incontáveis e diferenciadas parcelas de habitantes de uma determinada comunidade, município ou estado.

Seja qual for o seu tipo, portanto, cabe à biblioteca salvaguardar a história e os documentos relativos à comunidade ou à parcela de habitantes. Para tanto, há múltiplas funções a serem desenvolvidas, funções estas que requerem um profissional habilitado: o bibliotecário.

Cabe ao bibliotecário coletar obras, em quaisquer suportes, de interesse do público a ser atendido, para incorporação ao acervo. Ele necessita conhecer as características de edição, a seriedade das editoras e dos autores, sua competência no assunto, seu zelo pela língua portuguesa, seja nos originais ou nas traduções, suas diferentes visões de mundo, intérpretes, diretores, enfim, saber distinguir entre a boa qualidade de uma edição e a pura especulação comercial.

Cabe ao bibliotecário organizar o acervo, físico ou ciberespacial. Após selecionadas e coletadas, as obras necessitam de organização, visando a seu acesso pelo público, sob diversos enfoques de busca e recuperação. O bibliotecário conhece as normas e procedimentos para o intercâmbio nacional e internacional de informações bibliográficas e para adequação ao público.

Cabe ao bibliotecário disseminar as obras, por meios vários, inclusive ações culturais.

Cabe ao bibliotecário manter-se atualizado quanto às novas tecnologias voltadas à área biblioteconômica e a seus usuários.

Cabe ao bibliotecário manter-se atualizado quanto à cultura, à sociedade de modo geral e à comunidade em particular, de modo a promover a cidadania, a ética e a cultura da paz.

Cabe ao bibliotecário comunicar-se com o público, tornando o espaço biblioteconômico, tanto físico como ciberespacial, um lugar agradável e de lazer.

O hábito da leitura e do uso das instituições bibliotecárias desenvolve-se desde a mais tenra infância, ainda na pré-escola; estende-se ao longo da vida e permanece durante a terceira idade, caso se crie e se mantenha de forma adequada.

O bibliotecário, e somente ele, recebe formação consentânea e especializada para o cumprimento de todas essas funções, sendo portanto indispensável ao adequado funcionamento da biblioteca ou do centro de documentação e informação.

O bibliotecário é partícipe ativo da cidadania e da transformação de cada indivíduo.

Subscrevem este documento:

Profª Drª Eliane Serrão Alves Mey -  UFSCar (aposentada) e pesquisadora FAPERJ

Prof. Dr.  Marcos Luiz Miranda – unirio*, Diretor da Escola de Biblioteconomia

Profª Drª Elisa Campos Machado – unirio

Profª Maria Tereza Reis Mendes – unirio

 * A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO – compreende o mais antigo Curso de Biblioteconomia do país, que celebra 100 anos em 2011.

 (Nota explicativa: o texto foi elaborado para divulgação junto ao Gabinete do Ministério da Cultura. Foi elaborado sob a premissa de que todo cidadão pode e deve se manifestar a respeito de qualquer assunto, em especial aqueles que lhe dizem respeito mais de perto. Quem desejar pode assinar e divulgar o documento em qualquer tipo de veículo de comunicação. Pode incluí-lo em sites, blogs ou repassá-lo para órgãos da mídia. A autora, aliás, gostaria que o texto obtivesse mais assinaturas, fosse reproduzido e veiculado. OFAJ).

Agência Brasil Que Lê

No comando do maior Conselho de Biblioteconomia do País, Evanda Verri Paulino, a presidente do CRB, que reúne os 8 mil bibliotecários paulistas, defende um novo papel para as bibliotecas e adoção de um modelo híbrido, que integre as unidades municipais, comunitárias e escolares para atender melhor tanto os estudantes como as comunidades em seu entorno.

Publicado em 18|10|2009 por Moreno Barros
15

33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes


artigo de Will Sherman


tradução colaborativa de:
Moreno Barros
Isadora Garrido
Fabíola Pinudo
Sibele Fausto
Viviane Neves
Polyanha Hudson
Aline Gonçalves
Gustavo Henn
versão para impressão – download pdf


33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes

Muitos acreditam que a era digital irá acabar com as estantes públicas e extinguir permanentemente a era centenária das bibliotecas. A desconcertante proeza e progresso da tecnologia fez até um bibliotecário prever a queda da instituição.
Ele pode estar certo.
Porém, se estiver, então a perda será irreparável. Conforme a relevância das bibliotecas entra em questão, elas encaram uma crise existencial em uma época onde elas talvez sejam mais necessárias. Apesar de sua percebida obsolescência em uma era digital, tanto bibliotecas – quanto bibliotecários – são insubstituíveis por várias razões. 33, de fato. Nós as listamos aqui:

1. Nem tudo está disponível na Internet

O incrível volume de informação útil na Web tem, para alguns, engendrado a falsa premissa de que tudo pode ser encontrado online. Isso simplesmente não é verdade. O Google Book Search reconhece isso. Por isso eles tomaram a tarefa monolítica de digitalizar milhões de livros das maiores bibliotecas do mundo. No entanto, mesmo que o Google consiga com sucesso digitalizar toda a soma dos conhecimentos humanos ela é diferente da soma dos autores e editores contemporâneos que não permitem que suas obras sejam gratuitamente acessíveis na Internet. Já é proibido por lei disponibilizar livremente no Google Book Search os livros com direitos autorais vigentes; apenas partes. E levará muito tempo antes que o bestseller recomendado pelo New York Times seja disponibilizado gratuitamente na Internet: as leis de direitos autorais atuais protegem as obras por 70 anos após a morte do autor. Mesmo algumas obras sob domínio público sofrem algumas restrições. Se uma cópia sem copyright incluir prefácio, introdução ou apêndices que ainda estejam sob copyright, a obra toda fica sob o status de copyright.

2. Bibliotecas digitais não são a Internet

Um entendimento fundamental do que a Internet é – e do que ela não é – pode ajudar mais claramente a definir o que uma biblioteca é e por que bibliotecas ainda são extremamente importantes. A Elmer E. Rasmuson Library da Universidade do Alaska em Fairbanks deixou clara a diferença entre “Coleções Online” e “Fontes Web”. A Internet, seu site explica, é uma massa larga de materiais não publicados produzidos por organizações, empresas, indivíduos, projetos experimentais, webmasters, etc. “Coleções Online”, todavia, são diferentes. São tipicamente oferecidas por bibliotecas e incluem materiais que foram publicados por meio de rigoroso processo editorial. Trabalhos selecionados para inclusão em um catálogo de bibliotecas passaram pelo veto de uma equipe qualificada. Os tipos de materiais incluem livros, periódicos, documentos, jornais, revistas e relatórios que foram digitalizados, armazenados e indexados em uma base de dados de acesso limitado. Mesmo que alguém use a Internet ou um motor de busca para encontrar estas bases de dados, o acesso mais avançado requer registro. Você ainda está online, mas não vai muito lontg na Internet. Você está em uma biblioteca.
3. A internet não é livre
Embora o Projeto Gutenberg alardeie 20.000 e-books para download gratuito em sua homepage, somos imediatamente lembrados que esses livros são acessíveis apenas porque eles não estão mais sob direitos autorais. E os livros são apenas a ponta do iceberg. Numerosos trabalhos de pesquisa acadêmica, revistas e outros materiais importantes são praticamente inacessíveis para alguém tentar obtê-los de graça na web. Em vez disso, o acesso é restrito a assinaturas caras, que são normalmente pagas por bibliotecas. Visitar a biblioteca, pessoalmente, ou acessar a biblioteca por meio de sua conta de membro, é, portanto, a única maneira de se obter acesso a recursos documentais essenciais.
4. A internet complementa as bibliotecas, mas não as substitui
Para orientar as pessoas a achar informação, a Universidade de Long Island fornece uma explicação útil de quais tipos de recursos podem ser acessados por meio da biblioteca. Estes incluem notícias, periódicos, livros e outros recursos. Curiosamente, a World Wide Web está entre estes recursos como mais um meio para encontrar informações. Mas não é uma substituta. A página diferencia e explica as vantagens das bibliotecas em relação à busca pela internet. Cita os benefícios da internet, includindo “amostras de opinião pública”, uma coletânea de “fatos rápidos” e “uma ampla gama de idéias”. De forma geral, o ponto é bem correto: bibliotecas são instituições completamente diferentes da web. Sob essa ótica, falar sobre uma substituindo a outra começa a parecer absurdo.
5. Bibliotecas escolares e bibliotecários melhoram as pontuações médias dos estudantes em testes
Um estudo de 2005 das Bibliotecas Escolares do Illinois mostra que os estudantes que visitam frequentemente bibliotecas escolares com acervos bem abastecidos e com boa equipe terminam com pontuações mais altas em testes ACT e um melhor desempenho em exames de leitura e escrita.
Interessantemente, o estudo aponta que a tecnologia de acesso digital desempenha um papel importante nos resultados dos testes, observando que “escolas com computadores que se conectam aos catálogos de bibliotecas e bases de dados obtêm uma média de 6,2% de melhora nas pontuações de testes ACT”.
6. Digitalização não significa destruição
A avidez com que as bibliotecas investiram na parceria com o Google Book Search não é o trabalho de uma mentalidade impulsiva. Bibliotecas incluindo a Universidade de Oxford, da Universidade de Michigan, Harvard, da Universidade Complutense de Madri, a Biblioteca Pública de Nova York, a Universidade do Texas, da Universidade da Califórnia e muitos outros se uniram ao projeto do Google, em vez de evitá-lo. Na abertura de seus acervos, essas bibliotecas terão todos os seus livros eletronicamente disponíveis para seus usuários. Embora se possa esperar que livros sem direitos autorais, que em muitas ocasiões são totalmente disponíveis ao público, os materiais protegidos por direitos autorais – incluindo assinaturas de periódicos – ainda serão mantidos sob acesso restrito. A razão para isto é, em parte, porque as cláusulas indenizatórias do Google Book Search não chegam muito longe; o Google Book Search não isenta as bibliotecas de qualquer responsabilidade que possa incorrer caso elas ultrapassem os limites do direito autoral. E há uma causa real para esta cautela – o Google Book Search está enfrentando atualmente dois processos importantes de autores e editores.
7. Na verdade, digitalização significa sobrevivência
Daniel Greenstein da Universidade da Califórnia cita uma razão prática para a digitalização de livros: em formato eletrônico os livros não estão vulneráveis aos disastres naturais ou à “pulverização” causada pelo tempo. Ele ainda cita a destruição de bibliotecas pelo furacão Katrina como um importante lembrete da vulnerabilidade da “memória cultural”.
8. A digitalização levará algum tempo. Um bom tempo.
Enquanto a digitalização desenvolveu um ar de movimento incessante rapidamente acabando com as paredes das bibliotecas e expondo tesouros intocados, ela está bastante longe de alcançar seu objetivo. Com um número estimado de 100 milhões de livros impressos desde a invenção da imprensa, o processo dificilmente fez progresso. Digitalizar é caro e complicado, e até então o milhão de livros digitalizados do Google é apenas uma gota no oceano. “A maior parte da informação”, diz Jens Redmer, o diretor europeu do Google Book Search, “está fora da internet”.
Mas quanto tempo levará para indexar o conhecimento do mundo todo? Em 2002, Larry Page disse que o Google poderia digitalizar aproximadamente sete milhões de livros em seis anos. Desde 2004 o Google Book Search tem lidado com uma série de encaixes e começos. Em 2007, eles conseguiram indexar um milhão de livros. Então, numa média de aproximadamente meio milhão de livros por ano, digitalizar 100 milhões de livros levaria cerca de 200 anos. Assumindo que o Google saberia lidar com os desafios logísticos e legais e finalizasse 7 milhões de livros a cada 6 anos, o ano mais aproximado do término ainda seria 2092. No meio tempo, uma base usuária mais ampla se apoiará em bibliotecas, ou coleções online do que já foi digitalizado. Jogar fora bibliotecas físicas antes da digitalização ser completa deixaria os clientes da biblioteca no limbo.
9. Bibliotecas não são só livros
A tecnologia está se integrando aos sistemas de bibliotecas, e não os intimidando. Levando esse assunto ao seu extremo lógico (embora isso seja pouco provável de não acontecer), nós poderíamos eventualmente ver prateleiras inteiras de bibliotecas relegadas a bases de dados, e ter livros apenas acessíveis digitalmente. Então como isso deixa os bibliotecários? Eles estão sendo dominados pela tecnologia, a inimiga sem fim do trabalho? Não dessa vez. Na verdade, a tecnologia está revelando que o verdadeiro trabalho dos bibliotecários não é apenas colocar os livros na estante. Ao invés disso, seu trabalho envolve guiar e educar visitantes em como encontrar informação, independente se estiver em livros ou em formato digital. Tecnologia provê melhor acesso a informação, mas é uma ferramenta mais complexa, geralmente requerindo know-how especializado. Essa é uma especialidade do bibliotecário, uma vez que eles se dedicam a aprender as técnicas mais avançadas para ajudar visitantes a acessarem a informação efetivamente. Isso está em sua descrição de trabalho.
10. Dispositivos móveis não são o fim dos livros ou das bibliotecas
Previsões sobre o fim do livro são uma resposta previsível para a digitalização e outras tecnologias, e a bola de cristal de alguns que são pró-papel parecem também revelar um concomitante desmoronamento da civilização. Uma das últimas ameaças obscuras ao papel (e à sociedade) parece ser o plano do Google de tornar e-books disponíveis para download para dispositivos móveis. A versão iPod do romance chegou. O Google já escaneou um milhão de livros. Usuários dos trens japoneses estão lendo bestsellers inteiros em seus celulares. O fim está próximo. Mas se o e-book movel é um hit e um fenômeno duradouro, é improvável que eles serão uma transição para todos os tipos de leitores. O rádio continuou a viver apesar da TV, o cinema ainda tem alta demanda apesar do vídeo, as pessoas ainda falam no telefone apesar do e-mail. Pessoas que gostam de livros de papel continuarão a ler livros de papel mesmo se downloads móveis induzir a maioria dos editores a liberarem e-books ao invés de papel. Afinal, uma imensa reserva de livros impressos ainda será acessível aos leitores. Aonde quer que as bibliotecas se enquadrem ao supor que e-books móveis realmente substituam os livros impressos, a presença da biblioteca digital continuará a ser extremamente importante, seja baseada em papel ou eletronicamente.
11. O hype de repente é só hype
Os livros impressos não estão exatamente condenados, mesmo anos depois da invenção do e-book. Na verdade, ao se contrastar os méritos do e-book com os de um livro impresso, poderia-se argumentar que os livros em papel são de fato um produto melhor. Seria prematuro apagar as bibliotecas os seus livros grátis em função das previsões sobre a eminente proeminência dos e-books. A sociedade poderia perder um valioso acesso a um meio confiável – mesmo se os e-books vingarem.
12. O atendimento das bibliotecas não está fracassando – é apenas mais virtual agora
Com aproximadamente 50,000 visitantes por ano, a visitação aos Arquivos da História Americana (American History Archives) na Sociedade Histórica de Wisconsin (Wisconsin Historical Society) caiu 40% desde 1987. Essa estatística, quando colocada sozinha, pode se provar suficiente para qualquer pessoa que casualmente prevê o colapso das bibliotecas. Mas é apenas metade da história. Os arquivos também foram digitalizados e disponibilizados online. Todo ano a biblioteca recebe 85,000 visitantes únicos online. O número de escolas online oferecendo graduações online está constantemente aumentando também. Várias dessas escolas estão melhorando também suas bibliotecas virtuais.
13. Como as empresas, as bibliotecas digitais ainda precisam de recursos humanos
Mesmo as empresas online contam com suporte de qualidade para as melhores vendas e satisfação do cliente. A disponibilidade de e-mail, telefone e chat ao vivo melhoram a experiência de pessoas que procuram produtos e serviços. O mesmo vale para as pessoas que procuram informações. Em troca do pagamento de impostos ou taxas da biblioteca embutidos nas mensalidades da universidade, os membros da biblioteca devem esperar um confiável “suporte ao cliente” em troca de seus pagamentos. Os bibliotecários são de fato muito importantes no atendimento aos seus visitantes. E ainda hoje não há nenhum substituto equivalente para a biblioteca, que fornece acesso a montanhas de conteúdo que não está disponível através de motores de busca ou mesmo o Google Books Search, que só oferece trechos e links para lojas onde os livros podem ser comprados.
14. Nós simplesmente não podemos contar com bibliotecas físicas desaparecendo
Bibliotecas físicas nunca irão desaparecer. Mesmo que o Google Book Search pegue o ritmo e as bibliotecas financiem seus próprios projetos de digitalização, o futuro do espaço físico das bibliotecas continua a ser necessário.
Isso ocorre porque muitas bibliotecas ainda não estão digitalizando e muitas nunca poderão digitalizar. Há uma boa razão: este processo é caro. Numa estimativa baixa de 10 dólares por livro (e provavelmente muito mais para obras mais antigas, mais delicadas), digitalizar uma biblioteca inteira de, digamos, mais de 10.000 livros – bem, é bastante caro. E para muitos usuários da biblioteca, eles ainda dependem da tradicional abordagem eficaz para localizar informações com computadores no local ou bibliotecários disponíveis para ajudá-los.
15. O Google Book Search “não funciona
Se a indexação ao estilo do Google para os livros de todo o mundo espelhasse o bem conhecido serviço de busca da empresa, isto valeria como um forte argumento contra a manutenção das bibliotecas. Afinal, o Google tem uma grande tecnologia para pesquisar na web, certo? Nós não poderíamos simplesmente ignorar as bibliotecas?
Mas os especialistas lembram que o Google Book Search está longe de garantir tais facilidades como é experienciado com o serviço de busca na internet da companhia. Os elevados ideais da informação-para-todos são impedidos não só por conta das ações judiciais, mas pelo próprio desejo do Google de ser o poderosos chefão. Eles não estão prestes a entregar o seu índice para os outros concorrentes, como a Microsoft, Yahoo, Amazon e outros projetos independentes de digitalização. O usuário perde por não ser capaz de acessar tudo através do seu serviço preferido de busca por livros digitalizados.
Ao não conceder os arquivos digitais aos seus concorrentes, as empresas que assumem esta abordagem competitiva e corporativa em relação ao processo de digitalização, arriscam a sumirem do mapa, para bem longe da filosofia da biblioteca pública. Enquanto isso, as bibliotecas devem permanecer intactas e disponíveis ao público em geral.

16. Bibliotecas físicas podem se adaptar às mudanças culturais
A Comissão Nacional de Bibliotecas e Serviços de Informação dos Estados Unidos (NCLIS) é uma entre os muitos grupos que estudam e debatem a função das bibliotecas físicas na era digital. Em um simpósio da NCLIS, no ano de 2006, foi criado um relatório que clama por uma redefinição do que é o espaço físico da biblioteca. Menos como “depósitos”, foi uma das conclusões, e mais como uma junção de trabalho, aprendizado, ensino e novos tipos de programas.
17. As bibliotecas físicas estão se adaptando à mudança cultural
Qualquer pessoa subscrevendo as teorias do pensador do século 20 Marshal McLuhan poderia dizer que, junto com as mudanças no padrão de vida provocadas pelas tecnologias eletrônicas, o conhecimento que já foi encerrado em livros e compartimentado em áreas temáticas, está agora a ser livremente divulgado em uma explosão de democracia, tornando obsoleto a austeridade do solitário, ecoando os corredores da Biblioteca. Curiosamente McLuhan, que morreu em 1980, ainda disse certa vez: “O futuro do livro é a sinopse”.
Na verdade, esta mudança cultural antecede o uso generalizado da internet, bem como o Google Book Search. Por décadas a sociedade vem buscando uma compreensão mais holística do mundo, e maior acesso à informação. A busca por novos métodos de organização das estruturas educativas (incluindo as bibliotecas) tem sido ativa. E apesar de as bibliotecas não estarem em muitas das listas pessoais de “10 Mais Inovadoras”, elas têm se adaptado.
A diretora de bibliotecas da Washington State University, Virginia Steel, por exemplo, é uma defensora de maximizar a natureza social e interativa do espaço físico da biblioteca. Grupos de estudo, exposições de arte, lanchonetes e cafés – falar, e não sussurrar; esta é a nova biblioteca. Não é obsoleta, é apenas mudanças.
18. Eliminar bibliotecas representaria um corte no processo de evolução cultural
A biblioteca que estamos mais familiarizados hoje – uma instituição pública ou acadêmica que empresta livros gratuitamente – é um produto da democratização do conhecimento. Anteriormente, os livros nem sempre eram tão acessíveis, e as bibliotecas privadas ou os clubes do livro, eram um privilégio dos ricos. Isso começou a mudar durante o século XVII, com mais bibliotecas públicas surgindo e a invenção do sistema de Classificação Decimal de Dewey para padronizar os catálogos e índices.
As bibliotecas começaram a florescer sob o olhar do presidente Franklin Roosevelt, em parte como uma ferramenta para diferenciar os Estados Unidos dos nazistas queimadores de livros. Este aumento do interesse na construção de uma sociedade mais perfeita e liberal culminou em 1956 com o Ato dos Serviços de Bibliotecas, que introduziu o financiamento federal pela primeira vez. Hoje, existem dezenas de milhares de bibliotecas públicas nos Estados Unidos.
19. A internet não é “faça você mesmo”
É possível dizer que a internet presenteou a sociedade com um senso vertiginoso de independência. Acesso a informação do mundo todo – e máquinas de buscas gratuitas para poder pesquisar – traz a tona a questão da necessidade de bibliotecários, moderadores e outros mediadores; a rede, como parece, é um meio “faça você mesmo”.
Mas uma rápida olhada nas forças motrizes da internet de hoje em dia nos mostra algo diferente. A internet é intensamente social e interativa, e criou comunidades de usuários que geralmente são bem organizadas e integradas uma vez que são grandes. A internet está servindo como ferramenta para que humanos preencham seus instintos naturais de criação de comunidades – compartilhando, interagindo e fazendo negócios.
A economia online é dirigida em grande parte pela filosofia da web 2.0 de interação humana, revisão por pares e a democratização de conhecimento e análise. Máquinas de buscas fazem o ranking de páginas baseados em popularidade, plataformas de redes sociais atraem milhões de visitantes por dia e a enciclopédia mais popular da internet é escrita pelas mesmas pessoas que a lêem.
Como a Wikipedia, as terras online de encontro mais populares são geralmente as mais bem moderadas. Uma vez que bobagens e spammers são uma parte inevitável de qualquer sociedade (física ou virtual), o controle de qualidade ajuda a contribuir à melhores experiências online. Boa cidadania entre comunidades online (contribuição inteligente para a discussão e não spam) é um modo muito seguro de melhorar sua reputação como um membro útil do grupo. Para ser adotado, esse tipo de ambiente deve ser moderado.
Interessantemente, o papel do moderador é muito paralelo ao do bibliotecário: para salva-guardar um ambiente no qual o conhecimento pode ser acessado e idéias possam ser partilhadas.
A noção de que bibliotecas são algo do passado e que a humanidade abriu suas asas e vôou para uma nova era de verdade auto-guiada nada mais é do que ridícula. Infelizmente, é esta mesma noção que levaria ao desmembramento das bibliotecas como bagunçadas e datadas. Na realidade, a qualidade da rede depende da direção de um modelo acadêmico, um modelo de biblioteca. Enquanto os moderadores tem como melhorarem o novo e selvagem cenário cibernético, os bibliotecários já trilharam partes significantes desta viagem.
20. A sabedoria das multidões não é confiável, por causa do ponto de desequilíbrio
A alta visibilidade de certos pontos de vista, análises e mesmo fatos encontrados online através dos sites de redes sociais e wikis é construída – idealmente – para ser o resultado do consenso do grupo. O algoritmo do Google também se baseia nesse princípio coletivo: no lugar de um expert arbitrariamente decidir qual recurso é o mais “importante”, deixe que a web decida. Sites com alta popularidade de links tendem a ser os primeiros do ranking nos motores de busca. O algoritmo é baseado no princípio de que o consenso do grupo revela uma melhor e mais acurada análise da realidade do que um único expert poderia fazer. O escritor James Surowieki chamou isso de “sabedoria das massas”.
Em um vácuo, as multidões são provavelmente muito sábias. Mas muitas vezes nós percebemos a advertência da sabedoria das multidões de James Surowiecki no “ponto de desequilíbrio” de Malcolm Gladwell, que, neste contexto, explica que os grupos são facilmente influenciados pela sua vanguarda – aqueles que são os primeiros a fazer alguma coisa e que têm automaticamente influência extra, mesmo que o que estejam fazendo não seja necessariamente a melhor idéia.
A natureza altamente social da web, portanto, torna altamente suscetível, por exemplo, o sensacionalismo, a informação de baixa qualidade, com o único mérito de ser popular. Bibliotecas, em contrapartida, fornecem controle de qualidade na forma de um substituto a esta questão. Apenas a informação que é cuidadosamente analisada é permitida. As bibliotecas são propensas a permanecer separadas da Internet, mesmo que elas possam ser encontradas online. Portanto, é extremamente importante que as bibliotecas continuem vivas e bem, como um contraponto ao populismo frágil da web.
21. Bibliotecários são as contrapartes insubstituíveis dos moderadores da web
Os indivíduos que, voluntariamente, dedicam o seu tempo para moderar fóruns e wikis estão desempenhando um papel semelhante aos bibliotecários que supervisionam as estantes – e aqueles que visitam as estantes.
A principal diferença entre os bibliotecários e os moderadores é que, enquanto os primeiros guiam os usuários através de um conjunto de obras altamente autoritativas, publicadas, o moderador é responsável por tomar o leme quando o consenso é criado. Apesar de os papéis serem distintos, cada um está evoluindo junto com o crescimento rápido da Internet e a evolução das bibliotecas. Ambos moderadores e bibliotecários terão muito a aprender uns com os outros, por isso é importante que ambos se aproximem.
22. Ao contrário dos moderadores, os bibliotecários devem delimitar a linha entre bibliotecas e a Internet
Evidentemente, as bibliotecas já não são tanto do ponto de partida e término de toda a pesquisa acadêmica. A Internet está efetivamente puxando os alunos para longe das estantes e revelando uma riqueza de informações, especialmente para quem está equipado com as ferramentas para encontrá-la. Na verdade, o sonho de eliminar o intermediário é possível de atingir. Mas a que preço?
A literacia mediática, apesar de ser um ativo extremamente importante para os estudiosos e pesquisadores, está longe de ser universal. Quem vai realizar a educação midiática? Muitos argumentam que os bibliotecários são os mais indicados para educar as pessoas sobre a web.
Afinal, os moderadores da web estão preocupados principalmente com o ambiente que eles supervisionam e menos com o ensino de habilidades web para estranhos. Os professores e os pesquisadores estão ocupados com suas disciplinas e especializações. Os bibliotecários, portanto, devem ser os únicos que atravessam a internet para tornar a informação mais facilmente acessível. Em vez de eliminar a necessidade de bibliotecários, a tecnologia está a reforçar a sua validade.
23. A internet é uma bagunça
Como um website pró-bibliotecário coloca, “A internet em pouquíssimas maneiras se assemelha a uma biblioteca. A biblioteca oferece um conjunto claro e padronizado de recursos facilmente recuperáveis”.
Apesar da natureza um pouco combativa desta frase, sua premissa é essencialmente correta. Apesar das melhorias na tecnologia de pesquisa e a criação de sites surpreendentemente abrangentes como a Wikipedia, a internet ainda é, em muitos aspectos, um vale-tudo. Inundada com sites provenientes de todos os tipos de fontes que, inexplicavelmente, definham ou galopam por posições no topo dos rankings, a web é como um velho oeste super populoso. Muitas pessoas confrontam este caos com exemplos populares de sites de redes sociais ou grandes, complexos e altamente bem sucedidos esforços de organização da informação(Google, Wikipedia, et al). Mas, apesar desses esforços, um volume de páginas questionáveis ainda tende a ser oferecido em muitos resultados de pesquisa, e a credibilidade de cada fonte inerentemente acessada deve ser questionada.
Não que isso seja uma coisa ruim. Os oceanos da informação, a incerteza e a espontaneidade na web pode proporcionar uma experiência excitante e enriquecedora. Mas se você precisa limitar a sua pesquisa aos recursos logicamente indexados que foram publicados e avaliados por uma equipe de profissionais, a biblioteca ainda é a melhor aposta.
24. A internet está sujeita à manipulação
Ao mesmo passo que as mentes brilhantes por trás do Google estão vindo acima com um algoritmo de busca melhor, as mentes brilhantes de otimizadores de motores de busca continuarão a burlá-lo. Isto poderia envolver estar em conformidade com as normas de qualidade do Google, ou, em muitos casos, contornando-as. É importante que o usuário tenha em mente as limitações do Google. Em muitos casos, o gigante das buscas é bem sucedido ao servir boa informação. Mas em muitos casos, ainda está aquém.
Em contraste, é extremamente difícil penetrar nos índices das bibliotecas. Livros, periódicos e outros recursos devem ser nada menos do que material publicado de alto calibre. Se não forem, eles simplesmente não entram.
Além disso, o incentivo econômico para manipular as coleções de bibliotecas é muito menos intenso do que na internet. Estima-se que apenas 4% dos títulos de livros sejam rentabilizados.
Enquanto isso, o Google sozinho consegue ganhos incríveis com publicidade online, para não mencionar todos os outros se posicionando por um pedaço da torta da Internet.
Mas as bibliotecas simplesmente não estão enfrentando esse tipo de pressão. Sua maneira de fornecer informações, portanto, será menos influenciada por interesses corporativos.
25. As coleções de bibliotecas empregam um sistema bem formulado de citações
Livros e revistas encontrados em bibliotecas foram publicados sob diretrizes rigorosas de citação e precisão e, assim, são permitidos em coleções das bibliotecas.
Estes padrões simplesmente não são impostos aos sites. Eles podem aparecer nos resultados de pesquisa independente de fornecerem citação. Com bastante pesquisa, a precisão dos recursos da web muitas vezes podem ser determinados. Mas perde-se muito tempo. As bibliotecas realizam pesquisas muito mais eficientes.
26. Pode ser difícil isolar informações concisas na internet
Determinadas áreas, como condições médicas ou aconselhamentos financeiros são muito bem mapeados na web. Sites de qualidade para áreas mais marginais, no entanto, são menos fáceis de encontrar através de pesquisa na web. Seria preciso saber qual site se deseja visitar, e o Google não vai necessariamente servir exatamente o que você está procurando.
A Wikipedia, que possui um bom ranking para uma ampla variedade de áreas especializadas, está melhorando a concisão da web. Mas a Wikepedia é apenas um site, que qualquer pessoa pode editar, e sua veracidade não é garantida. Bibliotecas mantêm coleções indexadas de materiais de pesquisa muito mais abrangentes e concisas.
27. As bibliotecas podem preservar a experiência do livro
Consumir 900 páginas sobre a história intelectual da Rússia é uma experiência única para o livro. Em geral, o livro fornece um foco de estudo, porém abrangente, que resume anos de pesquisa de um autor – ou a equipe de autores – que dedicaram sua vida acadêmica a uma área temática específica.
Através do Google Book Search, a internet pode ser uma ferramenta para descobrir onde comprar um livro. Resultados da buscas normais revelam também uma variedade de revendedores de livros, cursos acadêmicos ou projetos web a serem apresentados.
Mas mesmo quando a internet oferece conteúdo real (como em uma pesquisa sobre a história da Rússia) a informação é muitas vezes pequena ou superficial – uma espécie de consulta de referência rápida. O conhecimento pode ser encontrado, mas a experiência de mergulhar em um livro de centenas de páginas não acontece online. A preservação das estantes, consequentemente, ajudará a preservar o acesso a esta forma de aprendizagem e a forma mais tradicional de aprendizagem pode continuar lado a lado com a novo.
28. Bibliotecas são estáveis, enquanto a Web é transitória
Em um esforço para melhorar o seu serviço e derrotar os spammers, os motores de busca estão constantemente atualizando seus algoritmos. Muitas vezes, porém, os danos colaterais irão nocautear sites inocentes, incluindo, talvez, recursos autoritativos. Além disso, sites comumente saem do ar ou alteram seus endereços. Outros sites que apontam para esses recursos (que eram bons) podem facilmente e sem querer agrupar um sem número de “links quebrados”. Esses sites podem permanecer sem qualquer edição por anos. As bibliotecas, por outro lado, tem um estoque seguro de recursos disponíveis e um sistema de indexação padrão que oferece resultados estáveis e confiáveis de forma consistente.
29. As bibliotecas podem ser surpreendentemente úteis para as coleções e arquivos de notícias
Em muitos aspectos, as bibliotecas ficam aquém da Internet quando se trata de agregar conteúdo de notícias. A TV, rádio e jornais online – para não mencionar a abundância de blogs referenciando e comentando sobre os acontecimentos diários em todo o mundo – muitas vezes pode saciar qualquer pessoa.
Enquanto isso, as bibliotecas continuam a assinar e armazenar uma determinada lista de jornais, e arquivam as edições anteriores. Este esforço pode parecer humilde ao lado dos longas listas de agregadores de notícias online e acesso instantâneo a artigos publicados em tempo real.
No entanto, a catalogação de notícias por uma biblioteca pode fornecer uma série de vantagens. Para começar, muitas publicações continuam a existir offline. Para quem procura um artigo específico de um jornalista específico, uma biblioteca poderia render melhores resultados – mesmo que a publicação tenha que ser rastreada através de empréstimo entre bibliotecas.
Bibliotecas frequentemente fornecem livremente exemplares de periódicos importantes que de outra maneira exigem assinaturas on-line, como muitas seções do New York Times.
Além disso, normalmente os arquivos desaparecem offline, ou tornam-se cada vez mais caros online. (Experimente a busca do Google News Archive). Isto pode deixar as bibliotecas com as únicas cópias acessíveis.
30. Nem todo mundo tem acesso à internet
Nas nações menos desenvolvidas ou mesmo nas regiões mais pobres dos Estados Unidos, acessar a biblioteca é quase sempre o único jeito de um indivíduo realizar uma pesquisa séria. Há pelo menos duas principais razões pelas quais a internet talvez não seja sequer uma alternativa ilusória às bibliotecas. Primeiramente, acesso online pode ser muito mais difícil do que o acesso à biblioteca. Uma biblioteca pública pode ter pelo menos um computador, enquanto outros pontos de acesso à internet podem cobrar alguém que simplesmente não possui meios de pagar pelo acesso. Em segundo lugar, mesmo se o acesso à internet for obtido, o lapso de educação tecnológica nas áreas pobres do mundo irá deixar a tecnologia muito menos útil do que seria para uma pessoa com mais experiência de navegação na web.
31. Nem todos podem pagar pelos livros
Fora dos países desenvolvidos, os livros são mais raros e muitas vezes mais caros do que suas contrapartes de primeiro mundo. Compondo o problema está um incrivelmente baixo salário mínimo, tornando o custo real dos livros astronômicos. A biblioteca pública, sempre que ela existe, portanto, torna-se muito mais crucial para a democratização da informação.
Como os Estados Unidos tende a ser um líder de tendências, especialmente em termos tecnológicos, deve ressaltar a importância das bibliotecas, mesmo quando a tecnologia avança. Divulgar a cultura de aparelhos eletrônicos sobre os livros pode colocar em risco a existência de bibliotecas tradicionais, deixando os pobres sem livros ou estas tecnologias.
32. As bibliotecas são um substituto para o anti-intelectualismo
Não é que a internet seja anti-intelectual; suas raízes acadêmicas e a imensa quantidade de sites acadêmicos com certeza atestam que seja um meio inteligente. Mas para alguns, o imediatismo sedutor da internet pode levar à falsa impressão de que apenas a discussão imediata, interactiva e simultânea possui valor. Livros empoeirados em prateleiras altas parecem então representar o conhecimento estagnado, e seus curadores (bibliotecários), ultrapassados. Os livros e a leitura fácilmente são considerados elitistas e inativos, enquanto o blog torna-se o aqui e agora.
Mas, como mencionado anteriormente, nem tudo está na internet. O acesso aos livros e teorias de centenas de anos de história cultural é essencial para o progresso. Sem isso, a tecnologia poderá se tornar a ferramenta irônica das tendências culturais sensacionais e retrógradas. Preservar bibliotecas para armazenar o conhecimento e ensinar as limitações da tecnologia pode ajudar a evitar a arrogância e o narcisismo da novidade tecnológica.
33. Livros antigos são valiosos
A idéia de uma biblioteca se tornar um “museu de livros” na era da digitalização é, às vezes, lançada como um discurso apocalítico. Isso é um pesadelo real para os bibliotecários. O termo insinua que, ao invés de se tornar contemporânea e útil, as bibliotecas poderiam se transformar em fetiches históricos como discos de vinil ou máquinas de escrever. Em vez de se manterem como profissionais de pesquisa, os bibliotecários seriam forçados a se tornar “curadores de museus” – ou, mais provavelmente, perderiam seus empregos. Mas se a evolução da biblioteca caminha no sentido de se tornar um lugar interativo para eventos culturais e troca de idéias, a preservação e exibição de relíquias literárias poderiam ser mais uma faceta da sua importância (e também, intriga). De fato, livros antigos não têm somente valor momenetário, mas são parte da memória cultural e histórica que não deve ser perdida para a digitalização.
Conclusão
A sociedade não está pronta para abandonar a biblioteca, e provavelmente nunca estará. Bibliotecas podem adaptar-se as mudanças sociais e tecnológicas, mas elas não são substituíveis. Enquanto que as bibliotecas são distintas da internet, os bibliotecários são os melhores profissionais para guiar acadêmicos e cidadãos para um melhor entendimento de como encontrar informação de valor online. Certamente, existe muita informação online. Mas ainda existe muita informação em papel. Ao invés de taxar as bibliotecas como obsoletas, os governos estaduais e federais deveriam aumentar os recursos para garantir melhores funcionários e tecnologias. Ao invés de galopar cegamente através da era digital, guiado apenas pelos interesses corporativos da economia da web, a sociedade deveria adotar uma cultura de guias e sinalizações. Hoje, mais do que nunca, as bibliotecas e os bibliotecários são extremamente importantes para a preservação e melhoria da nossa cultura.
Artigo original: Are Librarians Totally Obsolete?
Disponível em: degreetutor.com

Nêmora Arlindo Rodrigues

Presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia Há poucas profissões regulamentadas no Brasil, não chegando a trinta no total. No entanto, o universo de profissões existentes é imenso. E outras tantas estão sendo criadas, na medida em que as universidades lançam novos cursos, visando adaptar a evolução do conhecimento às necessidades do mercado de trabalho. A reflexão que surge é: se há tantas profissões, por que algumas desfrutam do privilégio de serem reconhecidas por legislação que regulamenta seu exercício? A resposta é simples: porque profissionais preocupados com o exercício pautado na ética e na qualidade dos serviços a serem oferecidos mobilizaram-se para que houvesse a devida regulamentação. Ou seja, os movimentos de classe conquistaram essa situação e muito tem se trabalhado no sentido de manter e aumentar essas conquistas. Quando se assiste melancolicamente o desrespeito à profissão de Jornalista, cuja tentativa de regulamentação foi comparada à tentativa de censura e controle da liberdade de expressão, percebe-se o quanto à sociedade fica desamparada. Quem vai analisar as faltas éticas e de manipulação da informação que seguem sem limites pela imprensa? Quem vai proteger o cidadão? E os erros médicos, sem a atuação do Conselho Regional de Medicina? E as obras de construção civil que colocam em risco a vida de milhares de pessoas, sem a fiscalização do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia? E os maus serviços oferecidos por pessoal leigo em bibliotecas e centros de documentação, sem a atuação do Conselho Regional de Biblioteconomia? Portanto, a regulamentação da profissão perpassa pela questão fundamental que é a de garantir ao cidadão serviços qualificados prestados por profissionais devidamente capacitados e éticos. Uma sociedade justa requer essa condição para
permitir qualidade de vida aos cidadãos. Em última análise, os conselhos de profissões regulamentadas existem para isso. Existem para proteger a sociedade em favor do cidadão. Aos profissionais que detêm o privilégio de pertencer a uma profissão regulamentada, cabe colaborar para o fortalecimento das entidades representativas da classe. As formas de contribuição não devem limitar-se ao pagamento das anuidades, mas devem efetivar-se de forma participativa, quer na denúncia de possíveis irregularidades, quer na construção da valorização da profissão. Convidamos os colegas Bibliotecários a participarem das atividades promovidas pelo Sistema CFB/CRB, visitarem as sedes dos conselhos, conhecerem os conselheiros que prestam serviços de forma voluntária e a engajaremse na nossa missão.


Data: 18/10/2009
Veículo: CORREIO BRAZILIENSE - DF
Editoria: DIVERSÃO E ARTE
Jornalista(s): Affonso Romano de SantAnna

"Vamos quebrar recordes na área do livro, da leitura e das bibliotecas. Dinheiro, aliás, para isto não vai faltar"

Direto ao assunto, sem blá-bla-blá. Dizia eu no Fórum Nacional Mais Livro e Mais Leitura, realizado em Brasília, há dias, que o prefeito Eduardo Paes, o governador Sergio Cabral, e claro, o Ministro Juca Ferreira e, sobretudo, o próprio presidente Lula poderiam lançar um projeto duplo: a Leitura da Olimpíada e a Olimpíada da Leitura.

O momento é este. Já que o presidente e o ministro estão para anunciar que zeraram o déficit de bibliotecas nos seis mil municípios, já que estão lançando, com outros ministérios, dezenas de ações na área do livro e da leitura. A Olimpíada 2016 surge como aquilo que os astrônomos chamam de "grande atrator" para que estabeleçamos recordes também na área da educação e da cultura.

Essa ideia flex (com dupla função) é simples. Primeiro, nas escolas, proceder a uma Leitura da Olimpíada. Ou seja, usar todas as disciplinas, seja geografia, economia, história, política, química, física, para estudar o fenômeno das olimpíadas da Grécia ao Rio de Janeiro. Botem criatividade nisto. Aí se estudará de tudo, desde o racismo, o terrorismo até a questão do doping. Uma "leitura" profunda do universo das olimpíadas se converterá numa grande enciclopédia de conhecimentos. É o grande jogo do conhecimento.

A isso se soma o segundo aspecto do projeto: Olimpíada da Leitura. Trata-se, neste caso, não apenas de fazer este ou aquele certame em torno da leitura, mas de ampliar e ou ultrapassar os muros das escolas. Enfim, "desescolarizar" a leitura, demonstrando que a prática de ler é uma tarefa de toda sociedade. Assim como já se assimilou que não apenas os atletas devem fazer ginástica e cuidar de seu corpo e saúde, por isto academias de ginásticas se disseminaram pelas cidade grandes e pequenas, e as pessoas correm e andam em avenidas e orlas marítimas, também a leitura é um exercício vital de inteligência. Quem não lê morre mentalmente, assim como quem não faz ginástica, engorda e tem enfarto. É preciso combater as adiposidades mentais. A sociedade contemporânea, com esse excesso de banalidades e visualidades tolas, está injetando gordura trans na cabeça das pessoas. Só com a prática da leitura, a revisão constante do conhecimento se pode combater os "radicais livres".

Uma Olimpíada da Leitura vai potencializar programas de leitura nos quartéis e hospitais, nos parques públicos e cadeias. Vai propiciar a edição de obras em feitio popular e impulsionar editoras e ONGs. Vai disseminar-se pelas periferias das cidades, onde não há livrarias e bibliotecas. Esse programa vai lançar mão dos "mediadores e agentes de leitura", que estão sendo formados; vai combater o "analfabetismo funcional", que assola e desola as universidades.

Meu caro Juca, diga ao presidente e aos governadores e prefeitos, que isto tem um antecedente: a Copa da Cultura, que o Ministério da Cultura realizou lá em Berlim, mostrando aos gringos que o Brasil tinha algo mais além de seu futebol. Lá estive e vi como isso funcionou. Deu certo.

Vamos acabar com essa separação entre o corpo e a mente como já diziam os antigos referindo ao ideal da mente sã em corpo são. Vamos quebrar recordes na área do livro, da leitura e das bibliotecas. Dinheiro, aliás, para isto não vai faltar. Muito dinheiro com poucas ideias é desperdício. E há um outro dado inegável: quando a olimpíada acabar, mais do que os prédios erguidos, estádios e campos, o que foi adquirido pela leitura ficará.

*Affonso Romano de Sant'Anna

Agora só falta organizar o conteúdo relevante

Pela organização do conteúdo relevante do processo colaborativo: já agrupamos por tags, assuntos ou perfil de usuário e o próximo passo é saber entregar isso de forma pertinente.

Por Flavio Vidigal

Que relevância de conteúdo é a bola da vez, disso já se fala há muito tempo, é chover no molhado mesmo. Mas a discussão que quero levantar aqui é: de quem é a responsabilidade de organizar todo conteúdo jogado na web até agora?

O fenômeno web 2.0 já passou e ninguém viu. O que faremos com todo esse conteúdo produzido?

Tendo em vista que a busca pelo conteúdo relevante já é uma prática que vem do usuário, em que ele vai atrás de vídeos, posts e fotos que lhe agradam mais, quando a web vai entender seus anseios e apresentar primeiramente resultados referentes a um determinado perfil de navegação?

Enquanto a web semântica não chega, ou seja, uma padronização que ajude tanto humanos quanto computadores a organizar o conteúdo e entregá-lo de forma relevante ao usuário final o que podemos fazer com relação a este assunto?

O Google tem a informação na mão, mas será que é dele a responsabilidade de organizar e difundir isso? Seriam os veículos? Nós criativos? Algum órgão do governo?

Acredito muito em fenômenos emergentes e acho que não estamos à altura de ditar quem vai fazer o quê no meio digital hoje. O que podemos é tomar parte deste fenômeno e fazer alguma coisa de útil. Isso sim pode partir de qualquer um.

Já temos conteúdo suficiente para agruparmos por tags, assuntos ou perfil de usuário, basta ser criativo e saber como entregar isso de forma pertinente. O que fazemos hoje quando queremos ver filmes das copas passadas de futebol? Uma opção é ir até o acervo da Globo ou procurar "copas" no You Tube. Mas se deu vontade de ler sobre esse assunto, lá vou eu no Google atrás de blogs, assim ocorre com fotos no Flickr etc.

O que se pode fazer são agregadores de APIs para que o usuário tenha tudo na mão em tempo real e de forma organizada.

Imagine o exemplo da copa, se tivéssemos um site que reunisse todos os resultados do Twitter pela tag "#Copa", os vídeos do You Tube, as imagens do Flickr, as notícias relacionadas e mais comentadas etc.

Divulgaríamos esse site por perfil de navegação uma vez que sabemos que na proximidade deste evento a busca pelo assunto aumenta significativamente e então apresentaríamos ele às pessoas que digitassem "copa do mundo" nos buscadores, por exemplo.

Parece óbvio e até já temos alguns sites e aplicativos que fazem isso. Mas poderíamos comprar essa ideia e tentar viabilizar cada vez mais esse fenômeno, sem precisarmos estimular a colaboração ainda mais, pois isso já está implícito na cultura digital de cada um de nós. Acredito na bandeira da organização e entrega de conteúdo relevante de todo processo colaborativo que houve e que ainda está acontecendo.

Volto à pergunta: de quem é essa responsabilidade? [Webinsider]

Sobre o autor

Flavio VidigalFlavio Vidigal (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) é supervisor de criação na JWT/RMG em Curitiba e mantém o site Flavio Vidigal Midia Interativa.


Eliane Serrão Alves Mey

A Biblioteconomia é das profissões mais antigas do mundo.

A primeira, certamente, foi a de tradutor, ou intérprete, quando os agrupamentos humanos se comunicavam entre si, ou quando o tradutor, dentro de um agrupamento, interpretava a vontade dos deuses. Aquela outra profissão, dita mais antiga, corresponde ao surgimento de bens materiais e valores individuais, não coletivos. Apenas a existência da posse e da herança faz com que a mulher se torne propriedade de um indivíduo, e não parte de um clã (1).

Quanto à antigüidade da Biblioteconomia, pode-se afirmar que seus fundamentos permanecem semelhantes ao longo dos milênios, embora suas técnicas, seus equipamentos, a produção e o uso de seus instrumentos, seus focos, seus usuários e seus estudos se hajam modificado com relativa freqüência.

E como se pode definir Biblioteconomia? Alguma literatura sobre o assunto (2), embora não amplamente revista e citada, permite resumir certas definições. Encontram-se os seguintes pontos essenciais, que a constituem, de modo geral: a) aquisição dos registros do conhecimento (desde a coleta de materiais tangíveis à criação de acervos digitais); b) organização dos registros do conhecimento (inclui análise, representação, criação de instrumentos de análise e representação, estudos teóricos e práticos, os mais variados); c) disseminação dos registros do conhecimento (abarca tanto os instrumentos de disseminação como os estudos sobre os usuários dos registros e outros aspectos teóricos e práticos).

Existem problemas iniciais com o termo Biblioteconomia, que se podem explicar, mesmo que não justificar:


a) a raiz biblio, derivada de biblion, não significa absolutamente livro; origina-se do grego, quando nem remotamente existia algo assemelhado a um livro; porém, referia-se à cidade de Biblos, produtora do papiro, material utilizado para escrita à época, em rolos (tipo barra de rolagem, como diz Manguel (3));

b) a palavra grega théke significa "caixa"e, por extensão, qualquer contêiner onde o material bibliográfico se encontre: estante, sala, edifício (cf. Edson Nery da Fonseca (4));

c) os sufixos -nomo, -nomia e -nômico derivam-se do grego -nomos, - nomia, -nomikos, e se aplicam a normas, regras, administração (por exemplo: agronomia, economia).


Portanto, a grosso modo, pode-se dizer que, segundo sua origem etimológica, a Biblioteconomia consistiria no conjunto de normas, regras ou leis para locais onde se guardam registros do conhecimento, ou na administração destes. Venhamos e convenhamos, uma definição muito pobre e acanhada para uma profissão de tal importância, respeitada no mundo inteiro (aqui já é outra conversa, à qual se espera chegar).

Talvez por sua origem etimológica, talvez pelas veneráveis instituições físicas, marcos arquitetônicos de prestígio, poder e cultura das nações, a Biblioteconomia continuou sempre, até o final do século XX, com sentido geográfico, espacial, vinculado aos edifícios-bibliotecas (5). A Profa. Cordélia Robalinho Cavalcanti, certa vez, disse que chamar os profissionais da Biblioteconomia de bibliotecários corresponderia a chamar os médicos de "hospitalários". (Durante a Idade Média, de fato, houve uma ordem monástica e guerreira, de hospitalários, cujos mosteiros deveriam abrigar peregrinos, doentes e feridos.) Assim, as bibliotecas, ao longo da História, destinavam-se à guarda, preservação e, até mesmo, disseminação de objetos físicos, tangíveis. Ou seja, um local para onde os usuários se deslocavam (ainda que para tomar emprestados os documentos), e não de onde se deslocavam os materiais até os usuários - função hoje exercida pelos arquivos eletrônicos na rede mundial de computadores.

Por fim, do mesmo modo, devido talvez a suas origens etimológicas, a Biblioteconomia caracterizou-se por conjuntos de normas, regras e, durante algum período ao final do século XX, pela administração. Nada tão enganoso, porque tais conjuntos de normas e regras mostram-se mais mutantes e mutáveis do que as roupas no dia-a-dia. E Biblioteconomia não é administração, mas esta se torna parte da multidisciplinaridade biblioteconômica.

Estaríamos, então, diante de uma área com nome falso? Erro de identidade? Amnésia profissional?

A partir do avanço significativo da eletrônica, durante e após a Segunda Guerra Mundial (uso bélico), até chegar ao uso institucional civil (décadas de 1970 e 1980) e ao uso individual (décadas de 1980, 1990 e neste início de século), formou-se um novo conceito, o de "ciência da informação", com inúmeros significados. Cabe aqui dizer que, como a "informação" é uma espécie de cortesã requisitadíssima, com uma corte numerosa e nenhum senhor, torna-se quase impossível determinar-lhe as características. Ela sempre muda, de acordo com o requisitante de seus favores no momento.

Lógico, hoje o mundo vive de informações. Mas será que estamos em uma sociedade da informação? Não creio!

Bem, talvez o mundo viva de conhecimento. Será que estamos em uma sociedade do conhecimento? Creio menos ainda!

Na verdade, a informação pura e simples, ou seja, o conjunto de signos que possui algum sentido, é manipulada, vendida, difundida, de acordo com interesses específicos, desde sua produção até seu consumo.

Há algumas semanas, por exemplo, avassalam-nos diariamente "informações sobre a gripe H1N1", por meio de boletins, notícias, entrevistas, publicidade, entre outros. Nenhum deles, porém, repassou-nos informações corretas e significativas. Se a mídia é contra o governo, apenas apresenta as mortes, para subentender que o governo não faz nada. Se os entrevistados são a favor do governo, tentam minimizar o quadro. Por um lado, fecham as escolas; por outro, continua o campeonato brasileiro de futebol, com milhares de pessoas concentradas em um estádio. Ou seja, uma quantidade massiva de informações manipuladas, de pouca valia para nós, cidadãos comuns. Sociedade da informação? Que falácia!

Da mesma forma, a "sociedade do conhecimento" faz-se para poucos. Historicamente, a "sociedade agrária" fazia-se para os donos da terra, e não para os servos-camponeses que nela trabalhavam; a "sociedade industrial" fazia-se para os donos das indústrias, e não para os operários que nelas trabalhavam; a "sociedade do conhecimento", ou a terceira onda de Toffler (6), faz-se para os poucos que detêm a posse ou os direitos (patentes) sobre o conhecimento e a informação, não para aqueles que com elas trabalham (um químico em uma indústria não usufruirá de seu conhecimento do mesmo modo que o conjunto de acionistas majoritários). Bill Gates talvez seja um dos únicos no mundo a desfrutar de seu próprio saber, em meio a bilhões. Sociedade do conhecimento? Mais uma falácia!

Como todas as falácias globalizadas, a Biblioteconomia e a Documentação internacionais mergulharam de cabeça na Ciência da Informação, esta área nebulosa, no limiar de várias outras, que ninguém sabe exatamente o que é.

O tesauro da Unesco, de 1975 (7), também confuso, na era pré-internet estabeleceu sutis diferenças entre "ciência da informação" e "ciências da informação". A Biblioteconomia seria um termo específico (TE) para Ciências da Informação e um termo relacionado (TR) à Ciência da Informação. A literatura sobre o tema é vastíssima e não nos preocupamos em citá-la. Destaca-se Buckland (8), em texto clássico, que distinguiu três tipos de informação: "como processo", "como conhecimento" e "como coisa".

Parece bastante claro que a informação, usada por biólogos, estatísticos ou jornalistas, por exemplo, serve de base para a elaboração de um conhecimento e seu conseqüente registro - só se pode tornar acessível, atingir o fim último de disseminação, a partir de seu registro, mesmo em ambientes naturais. (Um jardim botânico se diferencia substancialmente de um bosque, mesmo que ambos se mostrem indispensáveis à humanidade) Neste caso, portanto, a informação seria o fundamento para a produção de conhecimento e de registros do conhecimento. Nós, profissionais bibliotecários, também o geramos, dentro de nossa área; por exemplo: uma análise sobre comportamento dos usuários frente a catálogos automatizados, ou bibliotecas digitais. Informação, neste caso, caracterizar-se-ia como alicerce, ou como informação basilar.

Muito diferente apresenta-se a "informação" com a qual trabalhamos, que organizamos e disseminamos, a matéria-prima da Biblioteconomia, da Documentação e de todas as ciências afins. A propósito, Muela Meza (9) nos denomina "profissionais da informação documental". Não há como confundir a informação basilar com a informação matéria-prima, ou informação documental, ou registro do conhecimento. Na verdade, produzimos meta-informação; isto é, informações sobre informações documentais ou registros do conhecimento.

Existem, ainda, outros tipos de "informação", como os bits e bytes e outros fenômenos físicos da ciência da computação e das telecomunicações, que nos interessam apenas na medida em que afetam ou facilitam nosso trabalho.

Ao partir da leitura de alguns textos internacionais sobre formação em Biblioteconomia (10), verificam-se dois pontos-chave: a Biblioteconomia continua valorizadíssima no exterior e cada vez mais os cursos se denominam Ciência da Biblioteca e da Informação [Library and Information Science, ou LIS].

Um parêntese: há algumas décadas, existiam dois termos para Biblioteconomia em inglês: Librarianship[librarian = bibliotecário; -ship = sufixo para profissão; donde, Profissão de Bibliotecário] e Library Science [Ciência da Biblioteca]. Quando a Biblioteca deixou de ser geográfica para abarcar, também, o intangível, acrescentou-se Information [Informação] à Ciência da Biblioteca, gerando a LIS, sem abandonar a Library.

Após o Protocolo de Bolonha (11), já implementado em alguns países europeus (embora com inúmeras críticas e restrições), as universidades apresentam o modelo idêntico ao brasileiro: graduação, mestrado e doutorado. Os bibliotecários formam-se na graduação, com possibilidade de adquirir o certificado por outras vias, como mestrado ou especialização em Biblioteconomia (não em Ciência da Informação), após a graduação em outra área. Ou seja, a Biblioteconomia tem características próprias, arcabouços teórico e prático próprios, que exigem formação específica. O que não significa uniformidade nos currículos.

A França revela-se um caso à parte, ao proporcionar formações diferentes para tipos diversos de atuação, embora permaneça com a Biblioteconomia. Há duas associações profissionais de bibliotecários franceses: associação dos propriamente ditos e associação dos bibliotecários especializados e documentalistas. Oferece também um número significativo de cursos de pós-graduação voltados à área de tecnologia da informação e comunicação, ou seja, ao sentido amplo de Ciências da Informação.

O que acontece, no Brasil, que torna a Biblioteconomia tão envergonhada? Os bibliotecários não querem ser bibliotecários, mas "cientistas da informação" (qual das informações?), ou documentalistas, ou profissionais da informação etc. Por que não queremos ser "simplesmente" bibliotecários? Existe o estigma da palavra biblioteca; existem as bibliotecas escolares e públicas, regra geral precárias ao extremo. Essas não são causa, porém efeito, ou melhor, sintomas de doença social. Bibliotecas ruins implicam descrédito e menosprezo aos bibliotecários, criação de barreiras contra a leitura e contra o uso coletivo do conhecimento, contra a possibilidade de opção por alternativas e caminhos vários.

E como se demonstra este desprezo profissional no Brasil, esta gritante baixa-estima? Não apenas por trabalhos sérios e científicos (ver a tese de Tereza Walter (12), entre outros grupos de estudos e pesquisas), porém desde os cursos de Biblioteconomia em si. Certos profissionais de outras áreas, mesmo participantes da formação de bibliotecários, julgam-se superiores e, mais grave ainda, os docentes bibliotecários os aceitam como tal! Há cursos no Brasil que, de tão descaracterizados pela pseudo-interdisciplinaridade, por preconceitos medianos e desrespeitosos ao meio, entraram em colapso, em crise de identidade, originando conseqüências catastróficas à profissão e aos profissionais. Os desdobramentos iniciam-se pelo não reconhecimento da cientificidade da área. O que se torna muito estranho, mesmo.

Nós, bibliotecários, há milênios indexamos, criamos classificações do conhecimento, criamos linguagens documentárias e representação documental; estudamos comunicação com os usuários, e, pelo menos durante todo século XX, elaboramos e utilizamos dados estatísticos para avaliação de nossos instrumentos e seu uso (Otlet já tratava da bibliometria e faleceu em 1944) (13). Nada disso chegou junto com os computadores, ou com a análise de sistemas, ou com bancos de dados. Ao contrário, os conhecimentos biblioteconômicos tornaram-se subsídios para o desenvolvimento de conceitos teóricos nas áreas computacionais, entre outras.

Fique bem claro que não tenho absolutamente nada contra a computação! Adoro os equipamentos que facilitam nossa vida, cada dia mais práticos. Quem, vinte anos atrás, enfrentou filas e mais filas de bancos, ou pagamentos em carnê nas lojas, ou até cadernos de armazém, sabe o quanto vale um caixa eletrônico! Nada de voltar à era pré-internet, ou ao início do século XX, quando tínhamos varíola, gripe espanhola, tuberculose e outros males, sem vacina alguma, ou sem possibilidade de cura. Nada de saudosismos baratos! Os séculos XIX e XX têm importância histórica, social, filosófica, de grandes mudanças e acomodações da humanidade, mas viver no século XXI é muito melhor...

Nada disso, porém, nos impede de reconhecer que, mesmo mudada, a Biblioteconomia continua aí, abrindo portas a todos os seres humanos, não para uma "sociedade do conhecimento", mas para a transformação, o crescimento, o aprimoramento ético e social de cada indivíduo.

Por isto, indago: por que a Conferência Geral da IFLA, o mais importante evento biblioteconômico do mundo, com textos absolutamente essenciais para conhecimento e atualização dos bibliotecários, não vale pontos, ou quase nada, no conceito CAPES? Por que o CBBD [Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação] é desprezado pelos docentes de Biblioteconomia, com mínimo comparecimento? (Parece que a CAPES também não reconhece este congresso.) Por que temos cursos "burocrático-contabilistas" (especialmente na pós-graduação), onde se conta a produção docente em números? Alguém já se deu ao trabalho de investigar se uma produção excessiva não é fruto do prolífico autor "Control-C, Control-V"? Quem indexa e verifica similitudes e repetições, em vez de simplesmente confiar no Google, ou no Google Acadêmico? Alguém já se deu ao trabalho de verificar se não há um Maracanã inteiro de autores em um único texto? Será que o texto é coletivo, ou há uma apropriação indébita de autoria: eu assino seu texto e você assina o meu, ou algo semelhante?

Outro fato esdrúxulo ocorre ultimamente: orientandos de diversos cursos, de graduação ou pós-graduação, em vez de clarearem suas mentes em tais escolas e programas, parece que se obscurecem, tornam-se obtusos e não conseguem escrever nem mais uma linha por si mesmos! Dependem de seu orientador e do nome deste para qualquer texto publicado! Um fenômeno deveras curioso, que requer observação e estudo cuidadosos.

Há um caso difícil: o equilíbrio justo entre docentes bibliotecários e não-bibliotecários. A interdisciplinaridade, quando corretamente aplicada, seguindo preceitos éticos, pode tornar-se profícua e obter bons resultados. Se diferentes especialistas realizam pesquisas conjuntas voltadas à Biblioteconomia, se conhecem não apenas sua área, mas também a Biblioteconomia e seus princípios em profundidade e propõem-se a apresentar um enfoque diferente, existe um ganho indubitável. Porém, as pessoas refletem sua própria formação, sempre. Um número maior de docentes externos à área do que docentes bibliotecários criará sempre um viés desnecessário: seja para a estatística, a administração, a computação, a literatura, a sociologia, a comunicação, ou qualquer outra presente nos cursos, tangentes e necessárias à Biblioteconomia, porém nunca seu cerne. Comprometer futuros profissionais com esses vieses é uma temeridade sem volta e sem conserto (e em concerto desarmônico).

Todos nós, docentes, inclusive os burocratas/contabilistas (não cito o cunhador do termo por discrição) da Ciência da Informação, precisamos colocar a mão na consciência e verificar: o quanto somos culpados pela formação dos nossos alunos? O quanto aceitamos visões de mundo equivocadas? O quanto nos aproveitamos do trabalho alheio? O quanto estamos mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade do que publicamos ou orientamos? Por que nós, bibliotecários, não nos impomos como parte de um universo científico, real, aceito por todos os órgãos de fomento, em vez de nos escondermos atrás de disciplinas ambíguas? Por que aceitar apenas o conhecimento desenvolvido em cursos de sentido estrito (e que nem sempre contribuem de modo efetivo para a profissão e para o conhecimento em si) e menosprezar o "saber de experiências feito" (como citaram mais de uma vez o Prof. Edson Nery e a Profa. Cordélia Cavalcanti). Por que tive o privilégio de presenciar aulas ou palestras de professores altamente competentes, cultos, que revolucionaram ou mesmo criaram a Biblioteconomia brasileira, embora sem nenhuma "letrinha após o nome", enquanto muitos estudantes, hoje, assistem às aulas de professores titulados, mas que mal sabem expressar-se em nossa língua materna? Por que os alunos são obrigados a presenciar aulas de docentes que, não apenas desconhecem a profissão, como também a menosprezam? Uma questão de gerações? Ou um desrespeito?

Aqui entre nós: estamos indiscutivelmente habilitados a criar hábitos de leitura, a trabalhar com crianças e jovens, a realizar o papel maior da Biblioteconomia de permitir o acesso público, livre e gratuito aos registros do conhecimento?

Há muito o que pensar, muito o que pesquisar e muito o que escrever. Nesta hora em que parece decidir-se a Educação no Supremo Tribunal Federal (veja-se o caso dos jornalistas), vamos refletir sobre o assunto, unirmo-nos em torno de um objetivo comum e salvar a Biblioteconomia brasileira, na certeza de que se trata de profissão capaz de mudar o mundo.


Referências


1 - Engels, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. Trad. de Leandro Konder. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

2 - Alix, Yves; Revelin, Gaël. Les bibliothécaires, combien de divisions? Bulletin des Bibliothèques de France, v. 54, n. 4, 2009. Disponível em: . Acesso em: 07 agosto 2009.

Fonseca, Edson Nery da. Introdução à Biblioteconomia. 2. ed. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2007.

Shera, Jesse H. The foundations of education for librarianship. New York: Becker and Hayes, c1972.

Há inúmeras outras fontes não referenciadas.

3 -Manguel, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

4 -Fonseca, Edson Nery da. Op. cit.

5 -Afirmado por:

Bauwens, Michel. Le temps des cybérothécaires? Documentaliste-Sciences de l'Information, v. 31, n. 4-5, p. 233-237, 1994. Apud

Cavalcanti, Cordélia R. Da Alexandria do Egito à Alexandria do espaço. Brasília: Thesaurus, 1996. p. 89.

Mais recentemente, no texto de:

Maack, Mary Niles. Place and space as presented in English language library and information science encyclopedias. In: IFLA GENERAL CONFERENCE AND COUNCIL, 74., 2008, Quebec, Canadá. [Proceedings]. Disponível em: . Acesso em: julho 2009.

6 - Toffler, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 1982.

7 - Wersig, Gernot; Neveling, Ulrich. Terminology of documentation: a selection of 1,200 basic terms published in English, French, German, Russian and Spanish. Paris: Unesco, 1976.

8 - Buckland, Michael. Information as thing. Journal of the American Society of Information Science, v. 42, n. 5, p. 351-360, June 1991.

9 - Muela Meza, Zapopan Martín. Introducción al pensamiento crítico y escéptico en las ciencias de la información documental. Crítica Bibliotecológica, Monterrey, Mexico, vol. 1, no. 1, jun-dic 2008. Disponível em: . Acesso em: julho 2009.

10 - Por exemplo:

Alix, Yves; Revelin, Gaël. Op. cit.

Audunson, Ragnar. Library and information science education: is there a Nordic perspective. In: IFLA GENERAL CONFERENCE AND COUNCIL, 71., 2005, Oslo, Norway. [Proceedings]. Disponível em: . Acesso em: julho 2009.

Broady-Preston, Judith. Changing information behaviour: education, research and relationships. IFLA GENERAL CONFERENCE AND COUNCIL, 73., 2007, Durban, South Africa. [Proceedings]. Disponível em: . Acesso em: julho 2009.

11 - THE BOLOGNA declaration on the European space for higher education. Disponível em: . Acesso em: julho 2009.

12 - Walter, Maria Tereza Machado Teles. Bibliotecários no Brasil: representações da profissão. 2008. Tese (doutorado)-Universidade de Brasília, 2008.
13 - Fonseca, Edson Nery da (Org.). Bibliometria: teoria e prática. São Paulo: Cultrix, 1986.

Nota:
* Este texto delirante não apresenta referências formais nem citações ao longo da escrita (como preconizado nos meios acadêmicos), mas somente ao final. A vantagem de perdermos as amarras da Academia reside no direito de se escrever o que se quer e na forma desejada, sem perder de vista o "dai a César o que é de César" (Bíblia, Novo Testamento, século I d.C .).

Fonte: Infohome

 

Antonio Miranda esteve recentemente com Oscar Niemeyer em seu
escritório,no Rio de Janeiro, discutindo questões relativas ao prédio da
Biblioteca Nacional de Brasília , e leu para ele um poema de sua autoria
sobre o arquiteto.

Veja o texto do poema, uma foto magnífica do Museu do Conjunto Cultural da
República (obra do Niemeyer) feita por ROBSON CORRÊA DE ARAUJO e uma foto
de Miranda com o homenageado (às vésperas de seu centenário!). Um encontro
memorável!

 

Acesse a página  

[19/04/2007]

Cláudio de Moura Castro

As bibliotecas servindo ao ensino superior encontram-se em uma encruzilhada difícil, mas prenhe de novos caminhos. É bem conhecido o aumento exponencial de livros publicados e títulos de periódicos científicos e semicientíficos. Ou seja, ter uma boa biblioteca é uma aventura cada vez mais cara.


Ao mesmo tempo, de duas décadas para cá, praticamente não aumentaram os recursos financeiros das bibliotecas públicas. As privadas, tendo de viver do que pagam seus alunos, encontram limitações financeiras ainda mais graves. Com o acirramento da concorrência, foram-se os dias em que o ensino superior privado era muito lucrativo. A equação é simples, para comprar mais livros teriam de cobrar mais dos alunos, já que não há mais tanto lucro para financiar tais gastos. Portanto, com que recursos comprar livros?

 

Os alunos brasileiros não têm hábito de freqüentar bibliotecas e, ainda mais grave, não têm o hábito de ler. Fecha-se aqui o círculo vicioso. Ainda que houvesse recursos para a expansão das bibliotecas, plenamente justificada pela necessidade de dar acesso a alunos e professores ao mundo do saber acumulado, isso seria um enorme gasto com poucos benefícios, dada a falta de uso.

 

Na verdade, vivemos com poucos gastos e pouca demanda. Isso não seria preocupante se não soubéssemos muito bem da impossibilidade de ter uma educação de qualidade sem a presença íntima das bibliotecas.

 

Se especularmos sobre as saídas para o dilema, há duas direções óbvias: Não há como escapar da necessidade de obter mais resultados com menos recursos. Ao mesmo tempo, é preciso criar nos alunos o hábito de freqüentar e usar as bibliotecas. Mas antes de entrar nas soluções, vale a pena esmiuçar melhor as funções de uma biblioteca.

 

Para que serve uma biblioteca de ensino superior?

Deve haver muitas maneiras de segmentar as funções de uma biblioteca. Para nossos objetivos, podemos distinguir três grandes categorias: a biblioteca de pesquisa, a biblioteca de referência e a biblioteca para oferecer aos alunos as leituras indicadas. Cada uma dessas bibliotecas tem funções e problemas diferentes.

 

A biblioteca de pesquisa

Falar em bibliotecas no ensino superior evoca imediatamente a idéia da biblioteca de pesquisa, pelas mesmas razões que falamos em universidade, quando estamos realmente falando do ensino superior, onde a pesquisa é para poucas instituições.

 

Na verdade, uma biblioteca que realmente dê respaldo à pesquisa publicável em periódicos sérios é muito cara. Como prever os livros que os pesquisadores precisariam para fazer corretamente seu trabalho? A cada ano, somente no Brasil, há quase 50 mil novos títulos. Vários milhares deles são técnicos ou científicos, sendo candidatos a compras por bibliotecas das IES. Isso é mais do que o acervo total das bibliotecas da maioria das IES. Há áreas em que os livros são menos importantes em função de a comunicação científica ocorrer por artigos científicos publicados em periódicos, cujas assinaturas são também muito caras. Não tem fim o número de periódicos que seriam desejáveis ou imprescindíveis. O portal da Capes vem crescendo em quantidade de títulos e já anda pela casa dos 9 mil. Somente no Brasil, publicam-se muitas centenas de periódicos científicos.

 

Uma instituição privada, cujos custos têm de ser arcados pelas mensalidades dos alunos, não tem a mais remota condição de ter uma biblioteca desse calibre, fornecendo massa crítica para a pesquisa em todas as áreas em que oferece cursos. Naturalmente, algumas universidades privadas de certo porte podem usar seus recursos para concentrar os acervos de sua biblioteca em algumas poucas áreas em que têm alguma pesquisa. Sendo assim, pelas melhores razões, os muitos alunos das áreas sem pesquisa financiam os acervos dos grupos de pós-graduação, em que pode haver alguma pesquisa. As implicações de eqüidade para as políticas do Ministério da Educação (MEC), tentando forçar a pesquisa no ensino privado, não são das mais saudáveis.

 

Gostemos ou não, para a maioria dos cursos e das instituições, a pesquisa é imaginária. Ou é um sonho impossível ou é uma farsa para agradar o MEC. Somente em dez universidades há pelo menos uma publicação significativa por professor/ano.

 

Sabemos bem que, mesmo nos países mais prósperos, a proporção de instituições que fazem pesquisa publicável não passa de dois a três por cento do total.

 

Todavia, há uma outra pesquisa que interessa, e muito. É a pesquisa feita pelos alunos. Não é para ser publicada, não é para revolucionar a ciência. É o aprendizado do método científico que só é possível pela prática da pesquisa, mesmo que seja curta, simples e despretensiosa.

 

Para a maioria avassaladora das IES, é preciso pensar na biblioteca que dá apoio à pesquisa dos alunos. Bases de dados para as pesquisas empíricas, periódicos menos incompreensíveis e livros clássicos da área são as primeiras sugestões que vêm à mente. Obviamente, o planejamento das compras deve ser feito em comum acordo com os professores que estão engajados em orientar trabalhos práticos de alunos. Se a pesquisa dos alunos for corretamente direcionada para alguns poucos temas, é possível criar uma biblioteca minimamente decente nas áreas escolhidas.

 

A biblioteca de referência

Talvez, os bibliotecários tenham uma definição melhor, mas a biblioteca de referência é o acervo que atende a leitores de todas as profissões e variados níveis de educação. Classicamente, são os dicionários, enciclopédias, jornais e revistas de interesse geral. Some-se a isso os clássicos e os livros imperdíveis. E há também os livros e revistas no campo do “faça você mesmo”. Toda biblioteca deve ter um bom estoque de materiais desse tipo. Para alunos e professores, é uma janela para o mundo, sobretudo, fora de suas áreas de especialização ou profissionalização.

 

Devemos pensar que esse acervo deve cobrir do mais atraente ao mais hermético. O mais fácil, e até mais vulgar, tem o papel de levar o estudante para a biblioteca. Adquirido o hábito, leituras mais substanciais vão aparecer. Perguntei a uma bibliotecária: tem assinatura da Playboy? Por que não? Se isso leva o aluno a freqüentar a biblioteca, está dado o primeiro passo para conquistá-lo. Por outro lado, é preciso não gastar recursos com livros cuja probabilidade de serem lidos é ínfima. A biblioteca não é para impressionar o MEC ou quem quer que seja, mas para ser consultada.

 

A biblioteca de leituras obrigatórias

Todo curso universitário tem uma lista de leituras obrigatórias. Idealmente, os alunos deveriam comprar os livros-textos indicados em cada disciplina. Mas há cursos com mais de um livro e outros em que as leituras estão esparramadas em múltiplas fontes. Na prática, poucos podem dispor dos recursos necessários para as compras indicadas. Uma estimativa com poucas pretensões de exatidão indica um valor de 800 reais por ano.

 

Por essa razão, o MEC obriga à biblioteca comprar um livro para cada dez alunos. Como os livros ou capítulos de livros são necessários exatamente no mesmo momento, a obrigação criada pelo MEC de haver um livro para cada dez alunos é ridiculamente inadequada. Mas no caso das particulares, comprar mais livros só pode ser feito, passando a conta para os alunos, pois não há outras fontes para pagar tais custos.

 

Na prática, esse é o mais angustiante problema de biblioteca encontrado pelo ensino privado, já que a pesquisa é uma quimera distante. Os alunos precisam ler certos materiais, não têm recursos para comprá-los e não é possível financiar um número suficiente de exemplares na biblioteca.

 

As bibliotecas americanas usam o chamado sistema de reserva, pelo qual os livros indicados somente podem ser lidos na própria biblioteca e são emprestados por um número limitado de horas.

 

A alternativa de fotocopiar os materiais tem sido abundantemente usada. De fato, é graças a ela que boa parte dos alunos garantem um mínimo de leituras. Mas há restrições legais às cópias, diante da legislação de propriedade intelectual. Na verdade, esse é um campo de batalha e há grande ambigüidade nessa legislação, merecendo a detida atenção daqueles que operam IES ou que pensam em ensino superior. Mas adiante, voltaremos a este mesmo problema, apresentando possíveis saídas.

 

Novas técnicas e novas tendências

Na presente seção, discutiremos maneiras de tornar a biblioteca mais efetiva e mais completa, sem que sejam necessários recursos financeiros exorbitantes que, de resto, não existem na maioria dos casos. Ou seja, aqui cuidamos da questão de como obter mais com menos recursos.

 

A revolução da informática e das telecomunicações não poderia passar ao largo das bibliotecas. E de fato, com a tecnologia já existente, escancaram-se novas portas, oferecendo soluções impensáveis há algum tempo. Mas com um pouquinho de inteligência e imaginação é possível fazer muito, mesmo sem qualquer uso de tecnologias modernas.

 

Por que uma biblioteca em uma dada cidade deveria comprar um mesmo livro que já está em uma outra biblioteca em uma mesma cidade (afora os títulos de leitura indicada nos cursos)? Uma política inteligente do MEC seria penalizar a biblioteca que comprasse livros de uso infreqüente, já disponíveis em outras bibliotecas. Igualmente, deveria penalizar as IES que não tivessem um sistema rápido e fluido de empréstimos interbibliotecas. E sem catálogos dos acervos on-line de todas as bibliotecas locais, permanecemos na idade da pedra.

 

O COMUT , pela sua simplicidade, trouxe uma pequena revolução no sistema de circulação de artigos científicos entre bibliotecas. Havendo começado com fotocópias, pagas com selos ou bônus servindo como moeda, passou para cartões de crédito e versões eletrônicas dos documentos copiados.

 

Um passo possível, sem qualquer tecnologia mais moderna, é a publicação de livros ou cadernos, reunindo em um só tomo todas as leituras de uma disciplina. No processo de preparar tais materiais, eliminam-se os capítulos que não são indicados, encurtando dramaticamente o número de páginas, sobretudo em disciplinas em que há muitas leituras soltas ou quando o livro-texto é enorme e somente algumas partes serão utilizadas. O problema desta solução é a dificuldade administrativa de negociar direitos autorais com muitas editoras e autores. A Xerox nos Estados Unidos lançou essa possibilidade, já faz vários anos. Mas no Brasil, ainda não conhecemos nada similar, apesar de alguns anúncios de iniciativas nessa linha.

 

Uma alternativa que proporciona um potencial incalculável de benefícios para os alunos mais pobres é oferecer todas as leituras em meio magnético, de tal forma que ele possa receber ou gerar seu próprio CD, com todas as leituras do curso. O custo de um CD é desprezível e praticamente todos os alunos de um curso superior sabem como copiar arquivos. O problema aqui é a legislação de propriedade intelectual. Esta operação parece estar em uma zona cinzenta.

 

Mas ao se revelar esta alternativa possível, resolve-se de maneira dramática um problema crítico do ensino superior. Ler pelo monitor pode não ser uma atividade tão amena como fazê-lo em papel. Mas pode-se dizer o mesmo do transporte coletivo. Todos gostariam de ter seu próprio carro, mas o ônibus permite ir a lugares onde precisamos ir. O CD do aluno é uma solução paliativa, mas é amplamente melhor do que as alternativas possíveis que estão por aí.

 

A biblioteca virtual e os recursos entrópicos da internet são a grande e mais espetacular revolução. Instalou-se o caos da WWW, que oferece uma riqueza extraordinária de informações e cacofonias. O lixo da web não pára de aumentar. Mais devagar ou mais depressa, o número de leituras sérias, disponíveis eletronicamente também aumenta.

 

O acesso à internet já está amplamente difundido dentre alunos de cursos superiores – seja por linha discada ou banda larga. De fato, 92% dos alunos dos cursos superiores privados têm acesso à internet (na faculdade, no trabalho ou em casa). Ou seja, o computador difunde-se mais do que o livro.

 

Para trabalhos de alunos, mesmo em níveis pré-universitários, a internet já provocou uma grande revolução. Infelizmente, há um passivo temível. Antes da internet, o aluno tinha que copiar o que encontrava, entendendo ou não.

 

Hoje, muitos apresentam trabalhos com textos que sequer leram. Mas o potencial está aí e impõe ao professor um desafio de propor trabalhos que não possam ser feitos pela mera transcrição de textos encontrados na internet. No fundo, isso é um lado muito positivo.

 

Para assuntos mais sérios, as bibliotecas on-line revelam-se uma grande solução para as leituras da maioria dos alunos que não podem comprar livros. Ainda estamos muito longe de ter um acervo que cubra as leituras que os alunos devem fazer em seus cursos. Na verdade, os livros mais recentes estão sendo vendidos – por bom preço – e não seria viável tê-los on-line, a não ser que se encontrem maneiras de remunerar os autores. Mas não há dúvidas de que, dentre as políticas governamentais, resolver as pendências de direitos autorais deveria ser uma grande prioridade.

 

Um livro de ensino médio ou fundamental, pré-selecionado pelo MEC, pode ter tiragens de muitas dezenas de milhares de exemplares. Comprar seus direitos autorais e torná-los domínio público pode ser caro. Mas as tiragens dos livros de ensino superior são muito mais modestas e os proventos dos autores ridiculamente limitados. Não são tais rendas que motivam autores a escrever.

 

Ao mesmo tempo, negociar a venda de direitos de reprodução eletrônica de livros e artigos é algo que está acima das possibilidades de qualquer IES, individualmente, pelo tempo necessário e pela inexperiência. Estamos, portanto, diante de uma dimensão do ensino superior em que o poder público poderia gerar políticas e iniciativas de grandes conseqüências.

 

Há que notar uma diferença importante nas bibliotecas virtuais. Algumas são de acesso livre. Qualquer leitor pode entrar no Google e ter acesso ao que lá está. Não são poucas as fontes abertas de informações e cada vez há mais bibliotecas virtuais no Brasil. Por exemplo, há um movimento de colocar on-line os clássicos da literatura e da ciência brasileira. São publicações com copyright vencido e, às vezes, difíceis de encontrar em papel.

 

Mas para as atividades profissionais de pesquisa, as bases de dados são fechadas e o acesso a elas pode ser muito caro. Por exemplo, o acesso à coleção de periódicos de psicologia custa mais de cinco mil dólares por ano, dependendo do número de alunos da instituição. É ilustrativo o caso da Capes que paga vários milhões de dólares por ano para acesso à base de periódicos da Elsevier. Como a CAPES não dá às instituições privadas direito de acesso, os custos estão totalmente fora do alcance delas.

 

Finalmente, há um conceito curioso, que jamais vi apresentado desta forma. Trata-se da idéia de uma “biblioteca potencial”. Não é possível prever quais livros serão necessários para conduzir uma pesquisa sobre um tema ainda não definido. Seja para permitir uma pesquisa convencional com fins de publicação, seja uma pesquisa de alunos, as bibliotecas, públicas e privadas, são pobres e desatualizadas. Mas mesmo que tivessem recursos, antecipar o que o pesquisador vai precisar é um tiro no escuro. Só por acaso se acerta o alvo.

 

Por que não inverter a ordem e só comprar o livro quando isso se mostrar necessário, diante da demanda de algum professor ou aluno? A objeção clássica é que o ciclo de compra, envio e catalogação é tão grande que quando chega o livro, já não é mais necessário. Felizmente, a Amazon.com mudou isso, com os livros chegando no dia seguinte. É perfeitamente possível criar um mecanismo pelo qual um professor possa pedir livros da Amazon ou do Submarino no mesmo dia, quando houver necessidade. Ou seja, o livro pode estar em suas mãos em poucos dias, mesmo no caso de vir de outro país. Obviamente, a biblioteca precisa fazer sua parte, isto é, catalogar (ou registrar provisoriamente) no mesmo instante em que chegar o livro.

 

Há muito que podemos fazer para tornar as bibliotecas mais dinâmicas, mais eficientes e mais baratas. As tecnologias que aparecem todos os dias têm um grande potencial. Mas diante da inação e da falta de imaginação que se vê por todos os lados, na prática, o centro de gravidade da biblioteca é a máquina de xérox. Em que pesem os custos, o trabalho, as filas e as inconveniências, a biblioteca não passa muito de um local onde se fazem fotocópias. É um fim melancólico. Mas não precisaria ser assim.

 

A biblioteca multiuso e sedutora

Na seção anterior, tentamos mostrar que há um grande número de possibilidades de obter mais eficiência da biblioteca, de conseguir mais com menos recursos. Aqui, tomamos o outro lado da questão: como atrair os alunos, para que possam ser seduzidos pelos livros? Afinal, se não conseguirmos fazer os alunos lerem, para quê bibliotecas?

 

A biblioteca tradicional é um lugar aonde se vai para retirar livros e materiais de leitura. Para alguns poucos, oferece também espaços convenientes para a leitura. Com o tempo, as bibliotecas foram ampliando suas funções. Em primeiro lugar, passam a incluir em seu acervo leituras mais leves, como revistas de interesse geral e jornais. Isso aumenta exponencialmente o interesse dos alunos em visitá-las. Quando nada, economizam para o aluno o dinheiro do jornal ou da Veja. Nesse processo, ajudam a criar o hábito de freqüentá-las.

 

O aparecimento de apresentações musicais nas bibliotecas não é recente, pelo menos nos Estados Unidos. É mais uma razão para as visitas e para criar o hábito, tanto de ouvir música como de freqüentar a biblioteca.

 

As áreas de trabalho vão progressivamente se diversificando. Em alguns lugares, que haja um silêncio sepulcral. Em outros, que haja espaço para conversar, na esperança de que algumas conversas sejam sobre estudos.

 

Os computadores migraram para as bibliotecas faz muito tempo. Essa é uma das razões mais potentes para atrair alunos, mesmo que seja para verificar e-mails ou dar uma olhada furtiva em sites pornográficos. Mas o computador é a ferramenta de pesquisa por excelência. Portanto, com ele a biblioteca adquire uma renovada vocação para a pesquisa.

 

Há universidades nos Estados Unidos afirmando ser a nova geração de bibliotecas o local onde os alunos vão aprender a fazer pesquisa. Não deixam por menos. É lá que se estabelece o contato com os materiais escritos ou com as bases de dados eletrônicas. É o ponto de partida da pesquisa.

 

Obviamente, a contrapartida é que a equipe da biblioteca passa de guardadora de livros a tutores em métodos de pesquisa. É uma mudança e tanto, do ponto de vista de sua preparação prévia. Mas é uma mudança correta.

 

Finalmente, há duas outras mudanças que valem registrar, pelo que representam. A primeira foi popularizada pela livraria Barnes & Noble. Trata-se da oferta de “comes e bebes” em suas lojas. O hábito difunde-se e, mesmo no Brasil, muitas livrarias já têm seus bares ou lanchonetes. O salto da livraria para a biblioteca não requer muita imaginação. Se sucos e salgadinhos vendem mais livros, parece razoável supor que tornariam também os espaços das bibliotecas mais atraentes e confortáveis.

 

Para resumir, resolvido o problema do acervo, o principal desafio para a biblioteca é atrair alunos. É assim que deve ser, pois adquirido o hábito, o freqüentador pode chegar a ler coisas mais substanciosas. Poderíamos pensar que a meta é fazer com que o aluno vá para a biblioteca sem pensar e sem questionar o porquê de estar indo. É preciso criar o reflexo condicionado de ir para a biblioteca em todos os momentos de folga. Uma vez lá, as coisas acontecem e as atividades mais educativas automaticamente aparecem.

 

Para isso, tudo tem de militar a favor. A arquitetura tem de ser agradável e acolhedora. A temperatura e a acústica também têm de colaborar. Esse não é um empecilho menor, pois a maioria dos arquitetos brasileiros não gosta de se preocupar com esses dois assuntos. A biblioteca precisa oferecer atividades para todos os momentos e para todos os perfis de alunos. Do ponto de vista do espaço, essa biblioteca é voraz, requerendo para funcionar um espaço bem maior do que as tradicionais. Ela se funde com a lanchonete, com as áreas de convivência.

 

E os livros? Que livros? Caminhamos para bibliotecas sem livros? Uma grande escola americana, a Universidade do Texas, ousou dar esse passo. Levou para outras bibliotecas ou para outros locais quase todos os seus livros. A biblioteca virou tudo, menos depósito de livros. É um exemplo que exagera as tendências observadas hoje. É bobagem perder tempo especulando se a biblioteca do futuro não terá livros. Mas cabe constatar que, seja para trazer alunos mais para perto dos livros, seja pelo aparecimento espontâneo de outras funções para a biblioteca, o fato é que os livros se tornam uma alternativa, dentre inúmeras outras atividades e funções que ganham mais visibilidade.

 

Como sugere a presente nota, há muito a ser feito, há muito a ousar. Mas é inescapável o imperativo de transformar a biblioteca e transformar os alunos em leitores e freqüentadores dessa instituição mutante.



(Fonte: Revista Aprender Virtual)
(Divulgado por Sandra Harumi Ito – Enviado para Infohome em 23/03/2007)

AUTORIA COLETIVA, AUTORIA ONTOLÓGICA E INTERTEXTUALIDADE NA CIÊNCIA: ASPECTOS INTERDISCIPLINARES E TECNOLÓGICOS

 

Antonio Miranda*
Elmira Simeão**
Suzana Pinheiro Machado Mueller***
Professores do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília - Brasil.

* Doutor em Comunicação pela ECA-USP e Professor Titular do Departamento de Ciência daInformação e Documentação da Universidade de Brasília.
** Doutora em Ciência da Informação pelo CID/UnB e professora do Departamento de Ciência da
Informação e Documentação da Universidade de Brasília.
*** PhD in Information Science, Sheffield University, Inglaterra, 1982. Professora titular do
Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília.

 pdf Clique aqui... 290.15 Kb

Página 52 de 57