Reuniões

Reuniões (4)

Participantes: Vivianne Veras; Patrícia; Iza Antunes, Adelaide Cortes, Carmen Gramacho, Neide Gomes.

Resenha: O livro foi aclamado pela imprensa, na época, por ter sido o primeiro a retratar com riqueza de detalhes o pensamento, o comportamento de um adolescente, do ponto de vista dele próprio, bem como sua forma de se expressar. Pode-se concluir que o texto tem um pouco de autobiografia, tamanha a precisão dos relatos.
De início, o livro parece um pouco chato e enfadonho, ao relatar os diálogos sem sentido num linguajar grosseiro e agressivo do personagem e seus colegas. Ele focaliza momentos do cotidiano dos garotos: as brincadeiras agressivas (bullying), a falta de empatia, a falta de foco, atitudes bobas, etc. Mas, à medida que se vai prosseguindo na leitura, percebe-se a riqueza de informações repassadas sobre os conflitos e as incertezas do adolescente.
Holden, o protagonista é o típico rebelde sem causa. Para quem não viveu esse momento pode parecer estranho, e o texto nos mostra o que se passa internamente na mente de Holden. Não é tão diferente dos adolescentes atuais. Para ele nada parece bom, critica tudo e todos, e seus sonhos são divagações.
Ele vive um conflito que é persistente ao longo do livro: não gosta da escola, se sente incomodado com a falsidade que o cerca, mas também sente culpa por decepcionar os pais e por isso evita confronta-los; Sente culpa por se rico, mas não sabe como lidar com esse problema social e com a hipocrisia da classe média alta americana. Ao mesmo tempo em que exerce sua rebeldia, se preocupa com a família, especialmente a irmã mais nova. É um rapaz inteligente, gosta de ler (literatura é a matéria onde se sai melhor), mas como é comum nos adolescentes, não sabe o que quer e onde quer chegar.
“Quer dizer, e tem como você saber o que vai fazer até chegar a hora de você fazer? A resposta é, não tem como. Eu acho que vou, mas como é que eu posso saber? Juro que é uma pergunta idiota”. ( SALINGER, 2019, P. 253)
Nota-se também, que ele possui traumas não bem resolvidos (morte do irmão e um possível abuso sexual). Por ele manter isso em segredo, contribuiu para desencadear pensamentos e ações mais perturbadores, tornando-o um rapaz introspectivo e depressivo.
Só perto do final do livro se entende o porquê do seu título. Trata-se de uma música para crianças, onde o apanhador no campo de centeio é aquele que acolhe as crianças. Este chega a ser um dos desejos de Holden, ser uma espécie de protetor das crianças, pois diante da hipocrisia dos adultos apenas as crianças lhe passam inocência e honestidade. Por isso sua forte ligação com a irmã mais nova.
É brilhante a forma como o autor vai nos mostrando a personalidade desse adolescente, que por vezes é incoerente, e outras vezes sentimental e carinhoso. O Livro não está desatualizado. A adolescência ainda é um processo de transição muito forte e a rebeldia e os conflitos apenas mudaram de tema, e se potencializaram com a facilidade do acesso às drogas e das redes sociais.

 

 

Participantes: Vivianne; Maria Tereza; Patrícia; Suelena Bandeira

Resenha:  Analisando a relação com sua mãe e a convivência com as mulheres que participaram de sua formação, Gornick relata momentos de sua vida e que, consequentemente, contribuíram para a pessoa que se tornou. Embora se recuse a repetir as escolhas dessas mulheres, também não consegue se desvencilhar completamente dos comportamentos e visões de mundo delas.
As diferenças da geração de sua mãe e dela se sobressaem, mas ao mesmo tempo a trazem de volta ao aconchego do que é conhecido.
Vivi naquele prédio entre os seis e os vinte e um anos de idade. Havia vinte apartamentos, quatro por andar, e na minha memória era um edifício cheio de mulheres. Mal me lembro dos homens. Eles estavam por toda parte, lógico — maridos, pais, irmãos -, mas só me lembro das mulheres. (…)E eu a garota que crescia no meio delas, moldada à sua imagem — as absorvia como se fossem clorofórmio impregnando um pedaço de pano pressionado contra meu rosto. Foram necessários trinta anos para entender até que ponto eu as compreendia. (GORNICK, 2019, p.11)
O livro relata o processo pelo qual passaram muitas mulheres no final da década de 1950 e início de 1960 até a de 1970, quando o feminismo evoluiu e ganhou espaço na sociedade Percebe-se, ao longo do livro, os conflitos entre as gerações dessas mulheres, e suas dificuldades em se apartarem das críticas e do preconceito da sociedade. Contudo, a autora combate a mãe com suas opiniões, utiliza um vocabulário mais elitista, pois teve mais anos de estudo que ela e possui visões da vida mais avançadas. A filha tem planos diferentes da mãe, e a busca em implementá-los requer um esforço, como em todo o conflito de gerações. Gornick tenta vencer seus dilemas: casar ou não; dedicar-se a uma carreira; viver a liberdade sexual.
O texto retrata, também, uma época de transição, entre o papel meramente submisso e materno da mulher para uma versão mais livre e audaciosa, mas no fundo demonstra que, em alguns momentos essas mulheres foram de alguma forma protagonistas.
Naqueles anos, mulheres como eu eram chamadas de novas, liberadas, esquisitas (eu mesma preferia esquisita, prefiro até hoje), e na verdade eu era nova liberada e esquisita durante o dia, sentada à escrivaninha, mas à noite, deitada no sofá olhando para o espaço, minha mãe se materializava no ar à minha frente como se dissesse: “não tão rápido, minha querida. Ainda temos assuntos a tratar. (GORNICK, 2019, p.156))
Mas ambas - mãe e filha - são fortes, principalmente a primeira, que tem uma personalidade robusta e dominante, construída ao longo de muitas privações e embates como imigrante, judia e mulher, em busca de uma vida melhor. Sua força envolve o lar e todos que a cercam. Sobrepõe a filha, que, por sua vez, busca a liberdade, tentando se diferenciar do modelo materno. Ela tenta fugir da mãe, mas não consegue se desvencilhar dos vínculos tão bem entrelaçados. O impasse é: como não nos tornamos nossas mães, naqueles modos com os quais não concordamos, sem perdermos os laços maternos?
Parece que a autora não consegue. A força da sua mãe é grande.
Para o grupo, o livro ao mesmo desapontou, por ver como a autora se colocou num círculo vicioso que a impediu de viver plenamente, especialmente sua vida amorosa. Ela não conseguiu transcender ou criar um equilíbrio saudável onde pudesse manter a relação com a mãe e ao mesmo tempo seguir em frente. Ela não percebeu que pode ter uma carreira, ser esposa, amante e mãe do seu próprio, e não precisa ser tal qual foi sua própria mãe.

 

Participantes: Luciana Oliveira; Vivianne Veras; Patrícia; Iza Antunes; Maria Tereza Walter

Resenha: A princípio a história trata de um livreiro incomum, que procura vender livros de acordo com o perfil ou a necessidade do leitor. Ele desenvolveu (ou já tinha esse dom) uma capacidade de captar os sentimentos de seus clientes, tais como angústia, solidão, frustração, depressão, etc. O dinheiro não é o mais importante para ele. Apesar dessa sintonia que parece ter com o interior das pessoas, ele mesmo é uma pessoa solitária, angustiada e depressiva, que busca nesse trabalho “beneficente” uma fuga de seus próprios tormentos interiores, os quais não quer enfrentar.
Mais adiante, a autora muda o foco do livro para a vida pessoal do protagonista, traçando todo um caminho de vivências pelas quais ele passa, a fim de se reconstruir como pessoa e deixar para traz a inércia na qual vivia. Nessa mudança é que está a intenção da autora. Para ela, apesar de a leitura ser benéfica, em vários sentidos: traz luz, faz sonhar, motiva, engradece, traz respostas, faz questionar, é preciso também complementar com a ação. A saída do protagonista para uma longa viagem, na verdade, não seria uma fuga, mas a busca por colocar em prática tudo o que leu e experienciou no seu trabalho com as pessoas, na livraria, que tem por curiosidade ser montada em um barco.
O interessante de discutir obras literárias é que o olhar de cada um é bastante semelhante, em vários aspectos, mas a atração por este ou aquele detalhe são muito particulares, o que enriquece tanto a história, quanto aguça as percepções pessoais. Assim, as opiniões do grupo levaram a dois caminhos interessantes, correspondendo a basicamente duas visões. A primeira, trata do uso do livro como instrumento de cura interior, de como usá-lo como suporte na busca por resposta para vencer conflitos ou ajudar a ultrapassar obstáculos.
Lembrou aspectos de biblioterapia, prática conhecida pelos bibliotecários, que é a terapia por meio, não apenas de livros, mas também por textos verbais, jogos e imagens. Expõe o uso do livro como forma de conhecimento pessoal e, porque não, do mundo em que vivemos. Segundo a autora: “Devia ser uma obrigação que os governantes do mundo fizessem carteiras de habilitação para leitores...apenas quando lessem dez mil livros estariam próximos da condição de entender a humanidade”.
Esse poder enorme que a literatura tem de fazer sonhar e viajar é tão forte que também vale para nos fazer compreender nossos próprios sentimentos e ações, pois os conflitos, as atribulações que retratam os protagonistas são um espelho de nós mesmos, humanos que somos. As experiências são comuns a todos. O livro as colocar na nossa frente, por meio de palavras. Pode-se considerar, enfim, que a informação é repassada, mesmo que de forma literária. Ainda do escopo dessa visão, observa-se o papel do livreiro, que representa um tipo de mediador. Aquele que, ao vender o livro, entrega o conteúdo ao leitor. Esse tipo de livreiro, que procura captar o interesse do leitor a fim de ajudá-lo na escolha do livro adequado é um papel que quase esteve em extinção. Contudo, parece estar sendo resgatado, com o retorno das pequenas editoras/livrarias, onde o contato com o leitor é mais íntimo, mais próximo. Quem sabe ... Mais uma vez fez-se a ligação com o papel do bibliotecário, mediador entre o leitor e o acervo, entre o conteúdo e a informação de interesse do leitor. Enfim, o livro com seu potencial escondido em cada página, e os bibliotecários como mediadores, orientando e ajudando-os a ter acesso a estes.
A segunda visão que resultou desse encontro, tratou da questão da morte. Outro ponto forte do livro. Fez pensar como as pessoas muitas vezes não sabem como lidar com o luto. O Protagonista encara a perda da pessoa amada, inicialmente se negando saber o motivo dessa perda. Mesmo que estivesse escrito em uma carta, ele escolheu não ler assim evitou a dor de saber o motivo. Finalmente, quando decide ler, ele descobre as motivações da separação e, novamente, a dor da perda reaparece. Assim, ele passa pelo luto por duas vezes. Da primeira, ele se nega a encarar a perda, mas da segunda vez ele resolve agir, para, enfim, vivenciar o luto. Desse momento em diante ele parte para uma viagem e passa por diversas experiências, que lhe abrem o caminho para vencer esse luto e viver novamente.
Outro ponto, associado aos bibliotecários foi a desinformação. Por não ter lido a carta, ele perdeu, por desconhecer seu conteúdo, ou a informação que ela continha, um tempo precioso, o que o impediu de viver uma vida plena. E, ao descobrir o tempo que perdeu, as experiências que deixou de vivenciar e a ausência e ressentimento que o alimentaram por tantos anos, novamente a dor pesou. Por isso, de acordo com a autora e que nas discussões percebeu-se, reiterou-se a importância de viver o luto e a dor que causa. Vivenciá-lo, e não o desprezar. Segundo a autora: “[...] as memórias são como lobos, não adianta você encarcerá-las pois elas um dia vêm te pegar”.
O livro tem essa magia. Toca em pontos que o leitor, mesmo sem consciência desta necessidade, estava precisando refletir. Apresenta situações que estão sendo vividas por quem lê tal qual o livro trata, talvez ajudando a encontrar respostas.
Todo livro tem uma mensagem que chega a cada leitor de forma diferente, por isso as visões relatadas.
A Livraria Mágica de paris é um romance bem escrito e gostoso de ler. Para alguns do grupo, ficou faltando uma ligação melhor entre a parte do uso do livro como instrumento de reflexão e cura e o resgate do autor. Outros acharam que os tocou profundamente, quando retratou a necessidade de não se deixar corroer, negando dor.
De todo modo, não se deve ficar preso apenas aos livros. É preciso também agir, isto é, vivenciar plenamente, o que se descobre a partir das leituras. Buscar o resgate pessoal e tentar viver plena e intensamente, mas sempre na companhia de uma boa leitura!

 

 

 

Sábado, 02 Maio 2020 17:31

12/12/2019 - Terra sonâmbula da Mia couto

Escrito por

terrasonambula

 

Participantes: Luciana Oliveira; Vivianne Veras;  Iza Antunes; Adelaide Côrte

Resenha:  O romance conta a trajetória de dois personagens, Muidinga e Thuair, que se encontram numa estrada destruída pela guerra ( Moçambique). Trata-se de uma paisagem devastada, “em que hienas se arrastam e a tristeza se adensa, retirando a leveza das cores”. Os personagens se movimentam em dimensões física e mítica (sonhos, histórias), mas sempre cercados por um cenário de miséria, desesperança e desespero. Assim se apresentam Muidinga e Thuair, vagando em busca de um lugar até avistarem um ônibus queimado. Nesse momento descobrem os cadernos de Kindzu, o único dos mortos que não tinha o corpo queimado no local. Para passar o tempo, Muidinga lê as histórias do caderno e ambos viajam pelo mundo mágico das letras, onde folclores e tradições se misturam à tosca realidade que os cerca. É através da alternância de narrativa, isto é, entre os cadernos de Kinzu e as vidas de Muidinga que se dá a trama. Contudo, a terra está sempre presente, sendo descritas paisagens, folhagens, o mar, o pântano, tudo sempre envolto em mistério e ao mesmo tempo com reverência.
Tuahir, Muidinga e Kindzu são frutos de seu país, seguem sem rumo certo, desorientados, situação um tanto semelhante com Moçambique durante a guerra civil. Terra Sonâmbula nos permite imaginar a situação na qual se encontra o país e os relatos do velho Tuahir, de Muidinga e Kindzu mostram como é a vida num local tomado pelos horrores da guerra. Lugar onde sonhar se torna um meio de fuga da cruel realidade.
Apesar desse cruel cenário, o autor compila todo esse relato em forma de prosa poética, de grande beleza literária, levando o leitor a uma bela viagem pelo território da ficção, recheado de histórias míticas da literatura oral africana.
O autor utiliza em alguns momentos uma linguagem bem próxima a oral, repleta de provérbios, ditos populares africanos, folclore, fazendo emergir toda a sabedoria das tradições africanas. Nos faz refletir sobre a dificuldade do povo africano a lidar com a guerra e sua adaptação ao mundo ocidental. A narrativa do autor, um contador de histórias, facilmente nos faz construir as cenas, repleto de detalhes. É um verdadeiro diário de sobrevivência.
O livro denuncia a pobreza, a desestruturação das famílias, o abandono do povo em uma terra sem lei e os efeitos da guerra. Assim diz o autor: “A guerra é como uma cobra, que usa nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circula agora nos rios de nossas almas. De dia não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.”
A busca pela identidade, pela pátria, o distanciamento da tradição e a recuperação desta é o motivo que conduz a narrativa. Kindzu traz essa marca em seus escritos e ela será relevante também para Muidinga. Essa identidade tem relação com a terra em que vivem, daí o seu apego a ela, pois além de ser a fonte de vida, ela também é o elo que os liga à sua cultura. As pessoas compartilham a terra, uma história, uma cultura, e todo esse arcabouço, enfim, contribui para construção de sua identidade: “Se um dia eu me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixar sair de mim.”